Sobre o Afastamento de David


     Ele me segurava em seus braços enquanto suas mentiras penetravam o véu da minha iminente melancolia, apertando – que estaria em breve aos pedaços – meu coração com palavras suaves de esperança. Por que as coisas tinham que acabar desse jeito? A minha felicidade estaria mais do que assegurada se eu simplesmente o tivesse ao meu lado, como sempre tive desde décadas passadas. O mero pensamento dele morto de fato e deixando de existir me aterrorizava profundamente, para dizer o mínimo.

     As pontas dos meus dedos pressionavam o tecido frio do seu sobretudo de couro preto, o que eu mesmo havia escolhido para ele numa outra noite quando eu estava lidando com uma conferência de negócios bem no meio de um Shopping. Se eu concentrasse os meus sentidos sobrenaturais o suficiente, eu podia facilmente ainda sentir o distinto cheiro daquela lojinha cara. Enquanto eu me segurava nele, ele me apertava ainda mais fortemente. E eu sabia o que aquilo significava.

“Daniel...” sua voz estava tão quebrada quanto seu olhar sobre mim, os lábios se movendo silenciosamente, mas pareciam resplandecer como se feitos da própria poeira que compunha o Firmamento.

     Ele precisava dizer nem mais uma palavra sequer. Eu sabia excelentissimamente bem o que ele estava tentando com toda sua força me dizer. Embora ele estivesse me encarando, e esperando que eu olhasse para ele, eu não podia me forçar a fazer tal ato, pois eu temia olhar-lhe os olhos. Eu temia encarar naqueles olhos dourados e observar minha própria imagem se desfazer em vários pedaços.

“Daniel, olhe pra mim.” Ele ordenava o impossível de mim.

     Naquele momento, ninguém na Terra poderia me forçar a olhar dentro dos seus olhos, não obstante o quão poderoso fosse. Ainda assim, ele consegue gentilmente levantar minha face segurando o meu queixo. Seus dedos perdidos por um momento nos meus lábios, traçando o que pareciam, para mim, ser, talvez...

...ainda assim, de alguma forma, ele consegue fazê-lo. Mas enquanto eu encaro aqueles olhos, eu não conseguia me ver. E aquilo me deixou, de tudo, ainda mais desesperado. “David, por favor, não me deixe! Eu pensarei em algo em sua defesa. Nós diremos que foi um acidente!” minhas mãos agora viravam punhos e agarravam o couro, enquanto eu tentava não gritar e espernear.

Ele negou meu conselho com a sua cabeça, e segurou os meus ombros. “O Conde pode não ter sido tão conhecido, mas ele era um Ancião de Oitava Geração. Além do que, aqueles que possuírem Auspícios verão os traços tóxicos do sangue dele em mim. Eu apenas lhe colocaria em perigo se eu permanecesse aqui.”

“Mas eu bebi também! Qualquer um com Auspícios também o verá em mim! Eu irei com você, então!”

Pacientemente, ele sorriu e acariciou o meu cabelo, como ele sempre fazia para acalmar os meus nervos. “Isso me lembrou da época quando você não queria que eu fosse para a escola e lhe deixasse aqui. Você sempre conseguia elaborar as razões mais convincentes para que eu não partisse.”

“David... por favor, não! Eu não suportaria um único dia sem você aqui. O que eu direi aos outros membros da família?” minha visão começava a ficar levemente vermelha.

“Você dirá que eu fiz tudo sozinho.” Ele me encarava seriamente agora.

“Mas... Mas então! Eles o caçarão como um animal! Uma Caçada de Sangue!” minha cabeça caiu, já que eu não conseguia mais segurar minhas lágrimas sangrentas.

“Você me caçará também. Não deixe que eles desacreditem e expulsem você... Sem o Conde e eu, eles o farão o Senhor da família Reinsworth, e você vai aceitar o posto. Você compreendeu minhas palavras?” a última parte foi falada num tom sério muito específico.

“Ma-Mas—!”

“Daniel!” ele me balançou, temeroso de que eu perdesse o senso da realidade, mas tragicamente, eu permanecia cruelmente preso à ela. Enquanto eu olhava para ele de novo partido, ele enxugava o sangue das minhas bochechas gentilmente com sua boca e me sorriu assim que havia terminado. “Nós podemos estar separados fisicamente, mas nossos corações estarão sempre unidos. Tome...” ele tirou o pingente de coração ricamente detalhado de ouro puro que eu tinha lhe dado como presente de aniversário e o colocou em volta do meu pescoço, demorando seu olhar sobre ele. Dentro, uma fotografia antiga de nós dois ainda jovens e vivos. “Isso sempre me deu forças quando eu me senti perdido...”

     Involuntariamente, eu o larguei e fiquei olhando devastado para nada em particular. Então, minha mão começou a procurar algo dentro do meu bolso e o abriu na frente de nós. Era um pequeno relógio de bolso dourado e muito antigo, com a figura do Santo Graal encravado nele. Ele me dera quando ainda éramos crianças, e disse que era um tesouro deixado por seus pais.

Eu gesticulei para que ele ficasse com o relógio enquanto dizia apaticamente, “...para que uma parte de mim posse lhe ser útil.”

Com um movimento brusco, ele estava me segurando de novo, os braços cuidadosamente apertando o meu corpo contra o dele enquanto ele afundava seu rosto no meu pescoço. Eu implorava para que ele afundasse suas presas, me bebesse por inteiro e acabasse com a tortura que seria minha existência daquela noite em diante. Entretanto, eu conseguia apenas me forçar a fazer nada além de tremer e soluçar.

Finalmente, ele gentilmente me empurrou e virou de costas inumanamente rápido, mas parou bem diante da janela aberta. “Uma vez que eu vá, você deve informar os outros imediatamente para que eles não suspeitem de você.” Ele estava me encarando uma última vez para se certificar de que eu seguiria suas instruções.

Como eu apenas afirmei com a cabeça como resposta, me segurando no lugar, ele sorriu uma última vez enquanto subiu na janela e declarou, como se fosse o ‘The End’ num filme moderno qualquer, “Adeus, meu coração...”

No segundo seguinte, ele já tinha partido, levando consigo, finalmente percebi, de fato, o meu coração...


Att,
Daniel Reinsworth

Vampyren - Primeiro Capítulo: "Nocturne"

Parque Central, 01h14min da madrugada, arredores de Tóquio. O outono chegara mais cedo do que o de costume naquele ano, e as árvores já haviam adquirido a sua coloração característica da época. Na verdade, seria correto afirmar que as árvores perderam a sua coloração característica. Raras eram as exceções que escapavam da desnudez imposta como uma lei marcial pela tão carinhosa estação. Não que isso fosse algo de extrema importância. A nudez já era algo tão comum que as pessoas apenas se incomodavam com os pequenos mares de folhas mortas que se formavam aos pés das mesmas. Como deveriam se sentir as árvores sendo rodeadas por verdadeiros cemitérios de suas filhas tão amadas? Para ser franco, existiam pessoas que até apreciavam ver as árvores naquele estado tão desonroso. Por essas pessoas, a Mãe Natureza podia apenas lamentar.

No entanto, também existiam as pessoas que se sentiam entristecidas com o chegar do outono. Mas a infelicidade não estava de forma alguma ligada às perdas sofridas pela natureza. Era originária de algum acontecimento que lhes ocorrera no passado e que voltava para assombrar lhes, como se elas já não tivessem problemas o suficiente em suas vidas. Pobres seres... Incapazes de se livrar da mágoa e do rancor de suas próprias lembranças, e mesmo aquelas que conseguem escapar de suas garras, não lhes sobra mais nada além de um vazio no âmago de suas mentes incompletas. E o que dizer de um ser que nasceu desse tipo de ser tão infeliz? Seria uma existência ainda mais desesperadamente miserável que de sua espécie genitora...

Ele checou as horas no relógio de pulso mais uma vez, enquanto inconscientemente seguia seu caminho por entre as ameaçadoras árvores de outono. Apressou o passo, suando de tão nervoso que estava. Resolveu que iria de certo estrangular a secretária que o indicara este feliz “atalho” da próxima vez que a encontrasse. Bastou pisar nas pedras que calçavam as passagens de entrada do parque para lembrar-se de rumores envolvendo pessoas sendo encontradas mortas há algum tempo atrás. De repente desejou nunca ter adquirido o hábito de rotineiramente assistir aos telejornais do dia com tanto afinco.

Tentou acalmar-se, revelando para si mesmo as porcentagens e probabilidades de ser a próxima vítima de algum maníaco que supostamente rondava a região. Além do mais, desabafou consigo mesmo, a maioria das vítimas não eram mulheres de meia-idade? Se, de fato, esse assassino aparecer para mim, há de simplesmente descarregar o conteúdo de seu revólver e eu poderei ter uma morte rápida e indolor... E de repente, se assombrou com o próprio pensamento de ter um fim “aconchegante”. O assombro foi tanto, que parou no caminho que percorria.

Como se sua mente fosse um enorme campo de debates entre júris e juízes, logo lhe ocorrera que o tal “revólver” do suposto maníaco era uma faca daquelas que se usam em açougues, e que se ele resolvesse “descarregar o conteúdo” de sua arma, ele teria tudo, menos uma morte indolor. Nervosamente checou o relógio de novo e descobriu que já passava de uma hora e vinte e sete minutos. Olhou ao redor e enxugou o suor do rosto com o braço. Nenhuma alma viva além da dele, e a de alguém que supostamente se escondia nas sombras...

Com cuidado, inseriu a mão dentro do bolso interno do paletó que usava e recordou que a mesma secretária havia lhe oferecido o conselho também o havia emprestado um revólver de calibre 15, seja lá o que isso significasse. E o dito cujo estava carregado com seis balas. Não sabia nem se a arma era registrada, e riu de si mesmo. Entendia mais de leis do que do próprio alvo delas. Resolveu que, de fato, nada lhe assustava mais do que uma mulher com uma arma em posse. Lembrou-se de que, quando questionou a tal mulher sobre as razões para ela ter uma arma e a estar emprestando, a secretária apenas riu e disse que vinha do estado americano do Texas, e que, por lá, era muito comum as pessoas possuírem armas, antes de desejá-lo uma Boa Noite... De fato não tocaria nunca mais no assunto.

Ouviu o vento uivar nas árvores nuas e ainda naquelas que eram imunes ao efeito do outono, e mantinham todas as folhas que apenas se tornaram laranja. Com a arma em mãos, lembrou que era sempre quando o vento uivava desse jeito que os monstros surgiam das sombras e atacavam as pessoas incautas nos filmes de terror. Sentiu o suor descer de novo e continuou a percorrer o seu caminho.

Estranho... Retrucou para si. Já faz tempo que saí de um dos extremos do parque. A essa altura já deveria ter alcançado o outro extremo... E então se torturou com o pensamento de estar perdido naquele lugar tão sombrio.

O parque, além das árvores medonhas, era antigo, e, portanto, ainda não possuía postes de iluminação, e os que existiam estavam quebrados por vandalismo. Ele tinha que reconhecer que deveria ser um lugar bonito durante a primavera, e especialmente durante a luz do dia deveria parecer um lugar sereno até. Mas à luz do luar, era isso: as árvores se contorciam em uma espécie de dança odiosa, e a falta de luz em certos trechos dava a impressão que faria muito sucesso se aparecesse em algum filme de terror. A única coisa que faltava ao clima era uma névoa espessa.

Não entendia porque nunca ouviu falar desse parque antes. E era tão vasto que não percebê-lo se tornava impossível. Localizava-se entre a denominada “parede de arranha-céus”, que era o local mais comercial daquela parte de Tóquio. E o parque estava bem entre dois trechos de prédios enormes, ficando até em contraste e deformando a paisagem de arranha-céus, sendo algo tão minúsculo entre gigantes. E justamente por isso era que estranhava nunca tê-lo visto antes.

O escritório da empresa era um prédio bem em frente ao parque, e aceitara o conselho porque precisava chegar rápido em casa e com o seu carro no conserto seria impossível pagar a corrida do táxi. Não havia ruas cruzando a parede de arranha-céus, mas apenas contornando-a, o que tornara o parque tão atrativo aos seus olhos de início. Agora podia apenas arrepender-se de dar ouvidos aquela secretária tão desprezível.

A mulher era daqueles tipos que usam roupas extravagantes de propósito, mas que não enxergam o quão ridículas as roupas ficavam nelas. E ainda por cima tinha complexos de superioridade e até um certo grau de cleptomania, ele percebera. Não entendia porque foi dar ouvidos a uma mulher dessas.

Suspirou alto. Mulheres sempre foram o seu ponto fraco. Nunca fez muito sucesso entre elas, embora seus amigos dissessem que ele era um homem atraente. O estranho era que ele nunca ouvia as damas chamarem-no de atraente, mas apenas seus amigos homens o faziam. Parecia que só os homens o achavam atraente. Considerara muitas vezes se relacionar com outros homens, mas não achava coragem, e sentia até certa repugnância. Lembrou das épocas da academia, onde as garotas fugiam dele gritando “pervertido”, sem que ele dissesse uma única palavra. Sentia pena de si mesmo por nunca ter sido feliz nesse departamento, e embora fizesse muito sucesso em seu trabalho e pudesse comprar com seu dinheiro tudo que seus desejos mandassem, sentia o famoso vazio interno, porque na verdade, tudo que queria era ter uma família. Casar-se com uma mulher que ele amaria e ter filhos com ela e mimá-los porque ele os amaria também...

Cada vez mais se conformava que esse sonho nunca se tornaria realidade. A última mulher com quem namorou o trocou por outro e ainda disse que a única coisa que a manteve perto dele foi pena. De repente sua vida parecia um inferno: a namorada o trocara por outro no dia em que ele decidira pedi-la em casamento, o carro estava no conserto devido a um acidente com um filho da mãe bêbado em que o único que se arrebentara fora seu próprio carro, seus pais acabaram de morrer mês passado de uma doença e no mesmo dia e ainda perdera um contrato milionário com uma empresa do exterior por incompetência de um ou dois. Suspirou alto de novo, começando a desejar que esse maníaco surgisse logo e pusesse um fim ao seu tormento.

Meu Senhor...

Parou em seu caminho, franzindo suas sobrancelhas, confuso. Ouvira uma voz sussurrar algo agora a pouco... Olhou ao redor e não viu ninguém, e até virou-se de costas, sendo atraído pela lua tão cheia de esplendor. Ao resmungar alguma coisa, virou-se para seguir seu caminho e deparou-se com arbustos se remexendo com fúria. Rapidamente sacou a arma e disparou na direção dos arbustos sem pensar duas vezes sobre o assunto. O rebuliço parou, e fez-se um silêncio atormentador por alguns instantes. Suando, ele carregou a arma para outro disparo, enquanto apontava nervoso para aquela direção. Para sua surpresa, deparou-se com uma figura disforme.

Esbugalhou os olhos enquanto observou um jovem rapaz sair das sombras a sua frente, cambaleando em sua direção. O rapaz tinha um cabelo liso e profundamente negro, que balançava facilmente sob o vento de forma suave, cobrindo-lhe a testa e até um pouco os olhos. Não podia ver os olhos, mas viu um rosto delicadamente estruturado e tão fino, com uma pele tão branca e macia que parecia refletir a luz fria da lua. As roupas que esse rapaz vestia eram um tanto extravagantes: ele usava uma camisa de seda puramente branca e de mangas compridas que terminavam em punhos cheios de babados e laços. A gola da camisa era da mesma forma como os punhos da manga, cheia de laços e babados ondulados, e estava aberta até certa altura do diafragma, revelando um peitoral liso, livre de pêlos, mas com uma espécie de tatuagem escura que ele não pôde discernir bem, devido à precária iluminação ao redor. As calças eram de um tecido veludoso escuro e estavam coladas às pernas do rapaz, torneando suas coxas fracas. A cintura estava coberta pela camisa que descia até as tais coxas sem músculos, e a calça se estendia até os pés descalços.

Ao todo, o rapaz se parecia muito com aqueles príncipes da antiguidade européia, e mal se parecia com um homem, por sua aparência tão delicada e sensível. No entanto, o mesmo tinha uma aparência horripilante, pois sua camisa e tórax estavam completamente ensangüentados e o sangue ainda escorria de sua boca. Num instante, percebeu que o “príncipe” estava caindo lentamente para frente, aparentemente inconsciente e, com um movimento rápido, ele abriu os braços e segurou o rapaz com cuidado. Não pôde resistir à tentação de alisar o rosto do jovem de leve com a palma da mão, sentindo a pele extremamente macia como ele imaginara. Estava agachado no chão com o príncipe ensangüentado em seus braços e se sentia terrível, pois certamente aquele disparo o atingira em cheio.

“...eu... senhor...” ouviu voz suave aos seus ouvidos.

“Ei! Não desmaie! Fique consciente! Ei!” tentou despertá-lo em vão.

O rapaz desmaiara por completo. A lua ainda estava alta no céu noturno, e era a única testemunha do ocorrido, enquanto se escondia por trás das nuvens, embriagada. O vento uivava, mas de forma a parecer mais um coro do que um uivo de animal selvagem. As árvores já não se contorciam de forma ameaçadora para ele, e agora, o cenário de filme de terror se transformara em um drama, onde ele havia atirado em um rapaz tão bonito sem mais nem menos. Definitivamente ele iria estrangular aquela secretária...
  
(...)
  
“...Ele está fora de perigo. Não encontrei o ferimento de bala. Certamente ele apenas desmaiou de susto.” O médico recolhia seus apetrechos e os colocava dentro de uma maleta. “Também não consegui encontrar a origem de tanto sangue, e nem explicar porque ele tinha um pouco em sua boca. Nenhum ferimento interno também.”

“Não sei como te agradecer, Arisugawa. Não consegui pensar em outra pessoa na hora.” Ele sorriu tranqüilo.

O médico riu. “Mas que outro médico você acha que faria uma consulta de graça de madrugada? Agora você me agradece por ter feito medicina, não é, senpai?”

Ele devolveu o riso e apertou a mão do amigo. “Não se preocupe. Você ainda me deve muita coisa por aquele ano.”

“E isso inclui consultas grátis, hein?” Arisugawa balançou a cabeça, se retirando do quarto. “Bem, de qualquer forma, ele deverá ficar bem. Apenas deixe-o descansar um pouco e logo ele poderá te processar pelo susto.”

“Há-há! Muito engraçado.” Ele disse em tom irônico enquanto acompanhava o amigo. “Até logo.”

O médico se despediu enquanto o mordomo o acompanhou até a porta. Voltando para o quarto onde o rapaz dormia, ele sentou-se numa cadeira ao lado da cama, observando a figura adormecida de forma cautelosa. Não pode conter seus olhos de admirarem as formas do garoto: sem a camisa ensangüentada, seu peitoral inteiro estava à vista, e era tudo tão lisinho e parecendo tão macio que ele engoliu em seco, lambendo os próprios lábios. Pequenas curvas se desenrolavam a partir de uma cintura fina. Estimou que o jovem devesse ter vinte e pouquíssimos anos. Era incrível ele não possuir pêlo algum em parte alguma, e além do mais, onde estava a tal tatuagem escura que ele jurava ter visto antes? Deve ter sido sua imaginação, ele se convenceu.

Uma aura de fragilidade envolvia o garoto adormecido, ao ponto em que Misawa pensou que iria quebrá-lo se o tocasse. Por isso, continha-se em apenas deliciar-se com os olhos. Além do que, ele parecia tão sereno e tranqüilo em seu sono, com sua cabeça virada para o lado e com seus cabelos sedosos e tão pretos cobrindo-lhe a testa... Tão delicadamente e fragilmente belo, que poderia muito bem ser considerado um crime perturbar o sono de criatura tão magnífica.

Misawa levantou-se, deixando a cadeira onde sentava para sentar-se ao lado do jovem adormecido. Não mais podia conter o seu fascínio e nem tampouco resistir à tentação de tocar aquelas formas tão gentis e meigas. Era como se elas sorrissem para que ele as apalpasse e acariciasse. Bastava fazê-lo de leve e não o despertaria.

O que esse garoto estava fazendo num lugar como aquele, a essa altura da noite e coberto de sangue? Se o sangue não era dele próprio, então certamente era-

Parou em seus devaneios quando percebeu dois olhos de um azul tão claro e profundo como um céu de meio-dia sem nuvens ou como um mar dos trópicos, cristalino e raso, encarando-o, sérios. Caiu tão fundo naqueles olhos que o penetravam como os de um predador que encara sua presa, e não conseguia desviar o olhar de jeito algum. Qualquer vontade de fazê-lo era esmagada bem antes de ele percebê-la. Mas não se sentia estranho por efeito disso, mas exatamente o contrário, sentia-se o mais confortável possível naquela estranha hipnose silenciosa em que se encontrara. Foi apenas quando o rapaz fechou-os em um sorriso que ele se sentiu livre daquele transe.

“Boa noite, meu senhor...” A voz dele tinha um tom tão delicado quanto a sua aparência física o permitiria ter, assim como considerável inocência e gentileza, que circulavam ao seu redor como uma espécie de aura ainda.

Por um instante, Misawa não respondeu. Hesitou por alguns momentos, então o jovem virou sua cabeça de lado como um cãozinho confuso, “Há algo errado? Você está bem?”

Ao ouvir o tom de voz preocupado, ele imediatamente sorriu, “A-Ah! Claro que estou! Não se preocupe comigo!” Riu nervosamente, tornando a se sentar na cadeira ao lado da cama. “Até que enfim você acordou... Estava começando a ficar preocupado...”

O rapaz sentou-se na cama e olhou ao seu redor. O quarto de paredes brancas, e com nenhuma outra mobília além da cama e do pequeno armário para roupas, lustrado e igualmente branco como as paredes. Uma janela grande e única na parede oeste do quarto permitia a visão da madrugada do lado de fora, enquanto longas cortinas de um tecido semitransparente e azul claro cobriam-na os lados. O garoto analisou o lugar por um longo momento antes de questionar seu anfitrião, “Onde...?”

“Você está na minha casa. Eu te trouxe aqui logo depois que...” ele hesitou.

O jovem imediatamente virou e seus olhos brilhavam trêmulos. “Você o que?” sorriu, estendendo a mão na direção de Misawa.

“Ah, então você não se lembra?” Misawa coçou a nuca, envergonhado.

Por alguma razão, o garoto parecia que ia chorar, e estreitou os olhos que já se enchiam de lágrimas. Com um movimento rápido ele se jogou e abraçou Misawa forte, com ambos os braços ao redor do pescoço, e com o rosto afundado no mesmo. Suas pernas abraçavam a cintura máscula do bom-samaritano. Qualquer um que entrasse e visse a cena imaginaria que eles eram amantes, ou no mínimo amigos muito íntimos.

Ele foi pego de surpresa com aquele abraço tão forte, e hesitou por um longo tempo antes de fazer qualquer coisa. Suas mãos tremiam levemente ao seu lado. Então, ouviu o rapaz sussurrar ao seu ouvido.

“Eu estou com tanto medo...” sua voz trêmula, afundou a cabeça ainda mais no pescoço dele.

Finalmente, decidiu retribuir o abraço, e estendeu os braços ao redor da cintura delicada do garoto, sentindo o seu corpo inteiro relaxar.

“Está tudo bem.” Ele sussurrou. “Eu estou aqui com você. Vai ficar tudo bem.”

Sentiu o mesmo esconder-se ainda mais no seu pescoço, enquanto gemeu uma afirmativa, baixinho. Misawa fechou os olhos e aproveitou o abraço. Ele tinha que admitir que ninguém o abraçara assim forte há algum tempo, e a última vez foi com uma mulher que o traía pelas costas...

Então, sentiu o “príncipe” lamber o seu pescoço e um calafrio percorreu sua espinha. De repente, abriu os olhos, afastou-o rapidamente de si. O jovem o observava enquanto piscava os olhos, confuso.

“E-Eu quase me esqueci! Avisei para o meu mordomo preparar algo para você comer, já que o médico que cuidou de você disse que você deveria comer alguma coisa assim que acordasse.” Cuidadosamente, ele deitou o rapaz na cama sorrindo, enquanto o rapaz ainda piscava os olhos.

Se levantando para sair, Misawa sentiu o rapaz segurar sua mão. “Espere, não me deixe! Eu...” o garoto tinha aqueles olhos lacrimosos de novo.

Ele sorriu e afagou o cabelo do pequeno príncipe carinhosamente. “Não se preocupe. Eu vou apenas pegar algo para você comer e volto logo. Não precisa se preocupar com nada.”

Ele deixou o quarto, enquanto o rapaz recolhia sua mão, escondendo um sorriso insatisfeito com ela. Seus olhos se apertavam com raiva. Faltavam poucas horas para o sol nascer ainda, e para a janela aberta, por onde o vento entrava e balançava as cortinas quase invisíveis, o garoto já olhava, encarando-a por um longo tempo, antes de estreitar seus olhos.
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To be continued

Cerise - Mefisto, a Ninfa e a Torre de Babel

Já tinha passado da sua hora de dormir, mas ele não dava a menor importância àquilo. As Deusas ditaram que ele fosse àquele clube noturno naquela noite, e o que elas queriam, ele se certificaria de que elas tivessem. O pequeno desconforto nascia do fato dele ter passado tanto tempo longe daquele tipo de lugar que ele se sentia como segregado do tipo de pessoa que ali habitava.
Ele estava, aparentemente, no clube mais famoso da cidade – e um bastante caro também. Por que as Deusas o enviariam a um lugar daqueles se ele não tinha absolutamente dinheiro algum para ficar gastando daquela forma estava além dele saber. E já que ele acreditava tão cegamente naquelas divindades, ele seguiria seus comandos de boa vontade. Oras, ele nem estaria vivo hoje, não fossem elas!
Por isso ele gastara duzentos e cinquenta apenas para adentrar tal lugar sem reclamar. Se elas dizem que ele precisa estar ali, que assim seja. Elas também disseram que ele encontraria o Diabo ali, e que o mesmo o deixaria a alguns passos mais próximo de seu objetivo. Oriel leBlanc estava além da alegria em si, de fato.

Enquanto ele se sentava no bar, com seu coquetel gelado de morango sem álcool entre dedos finamente decorados com unhas perfeitamente pintadas, ele não conseguia evitar pensar a respeito do sujeito que encontraria. Desta vez ele não tinha nenhuma pista sobre a cor dos cabelos ou dos olhos, não. Tudo que ele sabia – além das características claras representadas pela carta do Diabo – era que ele identificaria o sujeito tão logo depositasse seus olhos nele. Então, talvez até que o tempo do encontro predestinado chegasse, ele devesse se divertir um pouco.

Quando ele sorriu para si mesmo com tais pensamentos, o barman depositou outra bebida em sua frente junto com um sorriso sensual.

“Uma dose pra cada sorriso que você der hoje... Que tal?”

Oriel analisou o homem diante de si, riu teatralmente, e disse, “Mas, ora, não estarias em desvantagem, meu precioso Stephano? Pois, ao competir comigo, estarias enfrentando um adversário que não se delicia com os néctares amargos do mundo! Acreditas estar lidando com Calibã, quando na verdade estais lidando com a própria Juno!”

A declaração apenas fez o homem rir e beber sua própria dose de seja-lá-o-que-for que ele estivesse bebendo.

“Você é uma graça, princesa!” falou o barman, se retirando em seguida para atender alguém do lado oposto.

         Oriel tinha se acostumado a ser tratado de tal forma por todos, não apenas por homens, mas por mulheres também. Em verdade, ele era capaz de facilmente identificar quando alguém estava flertando com ele numa questão de segundos. Bem, ele sabia que era lindo, maravilhoso até, e acreditava que os únicos seres que estavam acima dele eram as próprias Deusas – suas amáveis mães – então era natural que os meros mortais se sentissem atraídos por ele.
         Ele ainda teria que encontrar com um único mortal de carne e osso que não o amasse ou o odiasse. Logicamente sem contar com as pessoas que o desconheciam por inteiro – fato que em breve mudaria.

         Foi quando ele bebeu novamente de sua ambrosia particular que a mariposa da sua atenção foi atraída para a chama tão brilhante a alguns banquinhos de distância. Oriel estava agora olhando para um esboço de homem másculo: olhos japoneses, e cabelos curtos e negros, corpo grande e cheio de músculos revestido de uma camisa social de botões cinza claro com gravata vermelha, e calça social preta com um cinto marrom escuro. Sapatos marrons, também sociais, e um relógio de pulso em seu antebraço esquerdo completavam a figura.
        
         O homem era incrivelmente sexy e a barba malfeita só fazia Oriel querê-lo ainda mais. Entenda, as Deusas eram amantes ciumentas, e qualquer desvio de atenção ou de amor as forçariam a abandoná-lo à sorte do mundo. Elas tolerariam qualquer relação sexual que ele viesse a ter. A única proibição era o amor e o romance – ele jamais poderia se permitir se apaixonar por alguém que não fossem as Deusas dele. Uma troca justa por todo o dinheiro e fama do mundo, não?

         Por isso, quando o homem percebeu estar sendo observado e seguiu em sua direção, Oriel se certificou de jogar seu longo cabelo descolorido com as pontas lavanda para o lado oposto, tentando parecer não tão interessado quanto estava.

O garanhão sentou-se bem ao seu lado e Oriel pôde ver que ele deveria estar nos seus trinta e poucos anos. Apenas agora ele percebeu que além de estar bebendo o que parecia ser uísque puro, o homem estava fumando. Só então percebeu: aquele sujeito se encaixava perfeitamente no papel de Diabo que suas amadas lhe falaram.

“O que ‘cê tá bebendo?” ouviu a voz rouca do outro ao seu ouvido.

Ele encarou-o com um sorriso, “Um coquetel de morango sem álcool, o que mais?”

O homem franziu as sobrancelhas, incrédulo por um instante, então se virou para o bar e disse, “Tão exótico quanto parece, hein?” fez um gesto para o barman trazer outra dose, e quando este a trouxe, o homem deslizou-a para Oriel dizendo, “Bebe isso aqui.” E virou a outra dose que estava segurando sem pestanejar.

Ele encarou a dose generosa de uísque com desgosto, e tornou a olhar para o homem. “E então falarás de fé e amor eternos, de uma única urgência poderosa – fluirão tais coisas tão facilmente de teu coração, caro Mefisto?”

O homem riu de bom grado, “Fé e amor eternos? Num viaja não, delícia!” então percebeu que Oriel não tinha bebido a dose oferecida. “Vai mesmo me recusar agora, depois de ter me sacado todinho?”

Oriel estava querendo o homem, não poderia negar, mas como é que tal indivíduo poderia guia-lo? O homem diante de si parecia de fato ser a encarnação do Diabo do tarô, mas de forma alguma tinha Oriel sentido algo além da vontade ensurdecedora de realizar atos obscenos com o tal sujeito.

“Perdões, caro Mefisto, mas Oriel leBlanc não pode ingerir álcool. Ele pode inegavelmente divertir-se mais do que indivíduos alcoolizados, porém – isso em verdade te digo.”

O homem ficou alguns instantes olhando para ele e então balançou a cabeça negativamente, bebeu a outra dose e se levantou do banquinho com um suspiro cansado. Então estalou os ossos do pescoço e falou, “Tá bom, Oriel. Vamo.” Deixou uma quantia de dinheiro no bar e puxou-o pelo braço.

No instante seguinte, Rosiel foi guiado até um dos pequenos quartinhos na área VIP do bar, onde ninguém além deles dois passaria a habitar ali. O homem atirou Oriel calmamente contra a parede no canto mais escuro que encontrou, para em seguida agarrar-lhe o quadril e beijar-lhe os lábios com uma fome sufocadora.
Oriel estava estático. Jamais encontrara um amante tão... ardente quanto aquele homem. E pensar que nem ao menos sabia seu nome. Mas, se antes desconfiava que o dito cujo não era, de fato, Mefisto, agora se certificava por inteiro. Jamais lhe fora revelado pelas Deusas que ele teria aquele nível de relação com o famoso Diabo. Aquilo não passava de uma coitarca.

Quando o homem partiu o beijo (mas não antes de penetrar-lhe a boca com a língua afiada como uma espada), Oriel podia sentir o homem roçar seu pacote contra sua virilha e sorrir-lhe no fim ao ser capaz de extrair um gemido de puro apetite sexual do tarólogo.

Então, com uma mão, ele se apossou do rosto alheio, apertando-lhe as bochechas até doer. “Quero foder essa sua boquinha doce.”

Oriel não se considerava um romântico incurável. Nunca. Mas isso também não significava que ele gostava de ser maltratado. Ele se considerava uma semi-divindade, e como tal esperava ser tratado, especialmente por seus amantes. Aquele homem não era o Diabo – ele era a Torre, mergulhando infinitamente numa espiral de auto-destruição. Ele era um mau-presságio em pessoa.
Ao perceber a verdadeira natureza do homem, Oriel sabia que não podia permitir que elo algum se desenvolvesse entre eles. A Torre era a Deusa da Ruína, e impiedosamente castigava a todos com caos e destruição, e de todas as suas irmãs, era a mais severa e ciumenta. Ela não hesitaria em afogar Oriel em seu mar da Ruína. Ele precisava escapar!

“Pare agora, Babel, ou receba a fúria divina.” Oriel falou alta e claramente para o homem no tom mais sóbrio e sério que possuía.

“É o que?” Mas o homem o virou de costas, prendendo-o numa chave de braço. “Mas a gente mal começou...”

“Por que essa cena não me surpreende?” uma voz grave soou divertida de trás deles.

Ao virar a cabeça, o garanhão nomeou o possuidor da voz, “Vivien? É você mesmo?” E aos poucos o homem foi soltando Oriel e se virando para encarar o terceiro.

Uma vez livre, Oriel se virou para encarar seu salvador também, por assim dizer, e recebeu o choque, a epifania. Estava olhando agora para um cavalheiro com olhos sagazes. Não se tratava de um homem alto ou particularmente bonito, mas era charmoso, incrivelmente charmoso. Devia medir uns 180cm e tinha um corpo robusto, mas não era musculoso como seu conhecido. Sua pele era de um tom claro e seus cabelos bem escuros eram lisos e curtos. Tinha rugas pouco evidentes, em especial perto dos olhos e da boca.
O tal de Vivien havia se perdido no mundo da formalidade, Oriel pensou, pois usava um terno elegante e tão negro quanto seus cabelos com uma gravata de tons neutros. Seu cabelo estava impecavelmente arrumado e seu olhar era afiado, do tipo que incomodaria de certo quando muito encarado.

Mon dieu...” Oriel sussurrou para si mesmo com uma mão cobrindo a boca semi-aberta.
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(continua?)

A Caverna

Estava demorando mais do que eles esperavam para alcançar aquela caverna. De acordo com os habitantes do vilarejo, estava localizada em algum lugar ao redor do topo da montanha, perdida profundamente dentro da floresta, nos arredores da vila. As pessoas mantinham uma distância daquele lugar porque uma força sobrenatural afastava tudo, de animais até a vegetação. Essa era a pista.

Sisyphos suspirou cansado, enquanto forçava seu caminho por entre a densa vegetação. O calor tropical o fazia suar mais do que ele estava acostumado.

Ele enxugou a transpiração de sua testa com as costas da mão, e disse, “Nós estamos andando faz uma tempão... Quanto mais até chegarmos lá?”

Sua companhia não respondeu. Ao invés disso, ele cortou um largo tronco de árvore apodrecido com um movimento rápido de sua mão, abrindo uma trilha que estava completamente bloqueada com uma enorme facilidade.

Isso forçou Sisyphos a dar um passo para trás, surpreso. “Que susto!”

O outro homem parou em seu caminho, virou e o encarou com um olhar que parecia dizer ‘Sério? Aquilo te assustou!?’.

Sisyphos piscava os olhos e perguntou, “O que foi, El Cid? Tem algum bicho na minha roupa?!”

O cavaleiro de Sagitário começou a passar as mãos pelo sobretudo que vestia, esfregando feito um maníaco todos os lugares que conseguia alcançar. El Cid revirou os olhos e prosseguiu em seu caminho, deixando seu parceiro cheio de problemas para trás.

“Espera, El Cid! Espera aí! Me ajuda aqui!”

Contraindo sua mandíbula, ele podia sentir algo como raiva penetrando sua mente e seus pensamentos. “Ajude a si mesmo...” ele falou baixo.

Eles estavam numa parte afastada, no interior da floresta no topo da montanha. Havia muitas árvores altas que impediam que qualquer raio de luz iluminasse os largos troncos centenários. O chão era um verdadeiro cemitério de folhas mortas em decomposição, e ninguém poderia dizer o que mais se rastejava por entre elas.
Faltavam poucas horas para o pôr do sol, e isso significava que eles provavelmente teriam que encontrar um lugar mais ou menos seguro para passarem a noite, se eles não encontrassem logo a caverna.

Eles ouviram rumores de que uma caverna ao sul (bem ao sul) do Santuário continha umas escrituras e desenhos rupestres em suas paredes, contendo segredos sobre o Deus do sono, Hypnos. Claro que não passavam de rumores, e El Cid sabia que isso acabaria sendo mais uma rua sem saída, levando-os de volta a estaca zero. Eles já tinham investigado várias outras ‘cavernas’ e tumbas antigas, todas contendo segredos sobre Hades e os deuses que o seguiam.

Finalmente Sisyphos o alcançou, e, dentre alguns resmungos, ele falou, “El Cid! Por que você me deixou para trás daquele jeito? Nossa, mas que calor, hein?” Notando que El Cid se mantinha completamente indiferente às suas queixas e também ao calor que os rodeava, Sisyphos resolveu enfim parar de tentar puxar conversa...

...pelo menos por dez segundos. “Ah, é, você é da Espanha, não é? Esse clima quente não deve ser–“

Com um movimento rápido (e também com uma genuína satisfação), El Cid calou a boca de Sisyphos com uma mão e o empurrou e o pressionou contra uma árvore larga que estava próxima dos dois.
Eles agora estavam aos pés de um pequeno desfiladeiro que oferecia uma visão perfeita da tal caverna da qual tanto ouviram falar, e isso por causa de dois motivos principais. O primeiro era que ela batia totalmente com a descrição que eles ouviram: a caverna parecia mais com um abismo esculpido na rocha da montanha, e a vegetação fazia uma volta enorme para rodear a entrada, ficando a uma distância de mais ou menos cinco metros. O segundo motivo, e o mais importante e esclarecedor, era que um grupo de Espectros de Hades guardava a entrada.

Sisyphos protestou de início, mas então viu El Cid gesticulando para que ele ficasse em silêncio. Logo ele percebeu a presença tão... antinatural de seres que não poderiam estar vivos.

Enquanto El Cid observava atentamente os movimentos dos Espectros, Sisyphos sussurrou, “Quantos?”

“Seis.” O cavaleiro de Capricórnio respondeu rápido, sem tirar os olhos do inimigo.

         Ambos os cavaleiros pareciam ignorar completamente a proximidade dos seus corpos. Qualquer pessoa que os observasse de longe pensaria que eles eram amantes, porque Capricórnio tinha uma perna posicionada estrategicamente entre as coxas de Sagitário, enquanto sua mão que outrora calara a boca de seu parceiro agora segurava o pescoço de Sisyphos. O último segurava o ombro de El Cid com uma mão.

Mas ambos tinham expressões sérias, e foi então que Capricórnio sussurrou, “Cubra-me.”

“Entendido.”

No segundo seguinte, El Cid estava bem no meio do grupo inimigo, cortando três deles ao meio com seu cosmo em forma de espada, enquanto Sisyphos mirava a sua cosmo-energia em forma de duas flechas nos dois espectros que estavam prestes a atacar El Cid pelas costas.

“El Cid!” ele disparou as duas flechas de energia que acertaram em cheio os dois Espectros.

O inimigo que restou tentou escapar, mas o cavaleiro de Capricórnio foi mais rápido, e o encurralou, enquanto Sisyphos se posicionava atrás dele.

O tal espectro estava claramente nervoso. Ele não parecia ter nenhuma habilidade especial, e, a julgar pelo seu cosmo, não passava de um mero peão, como seus companheiros.

Encurralado, o espectro caiu de joelhos e abaixou a cabeça. O corpo inteiro estava tremendo. “Eu me rendo! Poupe a minha vida! Por favor, eu me rendo!”

Isso irritou Capricórnio ainda mais, que se preparava para lançar sua técnica mortal, quando foi interrompido por um preocupado Sisyphos.

“Espere, El Cid! Não há motivos para tirar a vida dele. Ele disse que—!” ele segurava o ombro direito de seu companheiro, encarando-o com um olhar apreensivo.

“Saia do caminho.” El Cid ordenou com um olhar de pura raiva.

“El Cid! Ele não deseja mais lutar. Não precisamos mata-lo!”

“Mesmo que seja você dizendo isso, eu não vou perdoa-lo. Agora, saia do caminho!”

O espectro aproveitou essa chance, gargalhou e lançou um ataque contra os dois. “Idiotas! Morram Cavaleiros de Atena!”

Aconteceu tudo muito rápido. O ataque estava direcionado mais para El Cid do que para Sisyphos, mas o último empurrou seu parceiro e recebeu o choque inteiro. O cosmo era fraco, mas foi o suficiente para passar de raspão pelo peito de Sisyphos, deixando um corte profundo logo abaixo do pulmão.

A cena só serviu para enfurecer El Cid ainda mais.

“Seu miserável!” e sem piedade, cortou o inimigo ao meio pela vertical, logo em seguida cortando-o em vários pedaços menores. Pelo jeito como o espectro gritou antes de virar poeira, deve ter doído bastante.

Uma vez o inimigo derrotado, El Cid se virou para amaldiçoar seu parceiro, mas ficou chocado ao vê-lo agachado ao chão, segurando o lado esquerdo do peito com uma expressão de dor. Ele parecia estar com problemas para respirar.

“Sisyphos!”

El Cid apanhou-o do chão e o carregou para perto da entrada da caverna, da mesma forma que um homem carrega sua noiva. Encostando Sisyphos com cuidado contra a parede de pedra, Capricórnio buscava compreender porque o homem se comportara daquele jeito.

“Não precisava...” Sisyphos sussurrava com dificuldade, “...ter matado ele.”

El Cid abaixou a cabeça. Sua raiva tinha atingido o limite. Ele se levantou, se dirigiu para a entrada da caverna e usou seu cosmo para revelar a barreira mágica que a protegia. Então, com um grito de ira ele desfez a barreira com um único golpe poderoso. A técnica foi tão poderosa que causou um pequeno tremor de terra, e fez com que Sisyphos (que estava prestes a perder a consciência) recobrasse seus sentidos e observá-lo com cuidado.

Após alguns segundos, o cavaleiro de Capricórnio caminhou até seu parceiro e se ajoelhou diante dele, furioso demais para encara-lo nos olhos.

“El Cid...”

“Cale a boca.” Ele falou baixo e frio. “Eu não quero mais ouvir uma só palavra de você.”

Sisyphos mordeu os lábios e se permitiu ser levado para dentro da caverna por seu parceiro sem fazer mais nenhum som. O sol estava a alguns minutos de se pôr no horizonte, e a escuridão da caverna lentamente absorveu ambos.

(...)

         A fogueira crepitava insistentemente, enquanto Sisyphos observava a chama dançar bem diante de seus olhos. Em seu rosto ainda habitava uma familiar melancolia. Fazia algumas poucas horas que eles tinham trocado algumas palavras, mas El Cid se recusava a sequer olhar na direção dele. Sisyphos compreendia a atitude dele, porque o culpado de toda a situação era ele próprio. Pelo menos era nisso que ele acreditava.

         Eles estavam num espaço dentro da caverna, grande o suficiente para que eles montassem um pequeno acampamento. Os dois se situavam em posições opostas: Sisyphos estava sentado com uma atadura cobrindo seu ferimento no peito nu de músculos bem definidos, El Cid estava em pé encostado contra a parede oposta com os braços cruzados e olhos fechados.

         O silêncio e a apatia vinda do seu parceiro doíam no cavaleiro de Sagitário mais do que o próprio ferimento em seu peito.

Foi então que, do nada, Sisyphos começou a falar com uma empolgação quase infantil, “Sabe, Aldebaran me contou uma história interessante o outro dia! Manigoldo teve uma discussão com o Grande Mestre sobre—“, mas então se interrompeu, e perdeu toda a empolgação quando percebeu que seu companheiro não demonstrava o menor interesse em prestar atenção no que ele estava dizendo.

E novamente o silêncio voltou entre os dois, com o crepitar da fogueira tocando no fundo. Sisyphos sentia que tinha que consertar qualquer erro que ele tivesse cometido e mordeu seus lábios, enquanto pensava numa forma de—

“Você é um idiota, Sisyphos.” El Cid falou baixo, mas sua voz beirava o tom monótono de sempre e uma leve preocupação. “Você sabia disso?”

Sisyphos sabia que tinha que responder, mas ele não sabia o que dizer como resposta. Em sua confusão acabou permanecendo em silêncio, enquanto El Cid continuava.

“Você me disse, uma vez, que a morte de um cavaleiro entristece Atena mais do que qualquer coisa. Você diz que não há méritos na morte, mas você trai tudo aquilo em que acredita quando age dessa forma imprudente. Você não entende isso, Sisyphos?”

“Você se lembra de quando nos encontramos pela primeira vez?” Sisyphos o interrompeu com um sorriso.

El Cid finalmente abriu os olhos apenas para encarar o outro. Depois de uma longa pausa, ele disse no tom de sempre, “De alguma forma você conseguiu me envolver na sua confusão com o Grande Mestre e acabamos os dois sendo punidos severamente.”

Sisyphos deu uma risada. “Ah, então você se lembra...”

Desde o começo você só me trouxe problemas que eu nunca desejei ter...

“Quando eu te vi pela primeira vez,” Sagitário continuava, “eu me perguntei por que os seus olhos refletiam tanta solidão.”

El Cid fechou os olhos; sua mente começara a doer de leve. De vez em quando, essa dor mental lhe invadia os sentidos toda vez que ele ficava tempo demais ao lado de Sisyphos. Ele entendia isso como um sinal do seu espírito lhe dizendo para se afastar do outro cavaleiro. Se ele não agisse rápido, a dor logo se espalhava pelo seu corpo inteiro, se concentrando no seu peito.
Ele também percebera, há algum tempo atrás, que quando Sisyphos se arriscava ou agia feito um idiota (da mesma forma como tinha agido mais cedo), essa dor sempre surgia para lhe infernizar.

“Por isso eu decidi logo de cara que eu me tornaria seu amigo. Porque eu queria ver os seus olhos refletirem alegria.” Ele sorria enquanto dizia isso.

“O que... você quer dizer com isso?” ele não percebeu a pequena pausa que fez, devido à dor ter se intensificado.

Olhando para seu amigo, Sisyphos falou, “Você sabe o que...” parou ao perceber algo de errado com o outro. “Você está bem?”

El Cid mal percebera que tinha levado uma mão à testa. Mas ele endireitou-se e negou, “Não é nada...” e balançou a cabeça.

Mas ninguém conseguia esconder um ferimento sequer de Sisyphos. Ele se levantou e andou na direção de El Cid, enquanto dizia, “Você usou muito cosmo para quebrar aquela barreira. Você precisa descansar.” Quando se aproximou o suficiente, tocou de leve o ombro do outro.

“Não me toque!” El Cid afastou a mão do companheiro de forma rude, e se encostou na parede atrás de si. A dor já tinha se espalhado rápido pelo seu corpo, e agora atrapalhava sua respiração.

Sisyphos logo se aproximou do amigo e o segurou pelos ombros, “Não seja teimoso. Onde é que está doendo?”

Desde o começo você só me trouxe essa dor que eu nunca quis sentir...

“El Cid!”

“Cala a boca!!” o espanhol agarrou o pescoço do companheiro e o empurrou com força contra a parede, invertendo suas posições. No segundo seguinte, juntou o punho e socou a parede bem ao lado da expressão de choque no rosto de Sisyphos, partindo um grande pedaço da rocha.

O cavaleiro de Sagitário ficou com os olhos arregalados encarando seu amigo que tremia dos pés à cabeça agora. Lentamente, seu punho foi enfraquecendo e agora ambas as mãos seguravam os ombros do outro. O pescoço de El Cid parecia que tinha perdido as forças, e acabou forçando-o a baixar a cabeça.

“El... Cid...”

O próprio começou a soluçar, mas não de tristeza, de raiva. Ele tentava direcionar essa raiva para seu companheiro, mas no fundo, no fundo, a raiva se direcionava automaticamente para ele próprio. Ele foi acabar por encostar a testa no ombro do companheiro, que permanecia paralisado.

“Eu não consigo... Por que eu não consigo, Sisyphos?”

O outro não conseguia falar nada.

“Eu sempre quis te odiar tanto. Do fundo do meu coração, eu sempre desejei te odiar tanto. Você é tudo que eu jamais desejaria ser... Desde o início, eu... Eu sempre tive todos os motivos pra te odiar, mas eu... Eu não consigo!”

Sisyphos assumiu uma expressão triste e vazia ao mesmo tempo, e envolveu os braços ao redor da cintura do outro, subindo pelas costas dele. “El Cid...”

“Por que, Sisyphos? Me diga!” o outro se agarrava ao amigo, apertando-o no abraço.

Foi então que, depois de uma pausa, Sisyphos sussurrou ao ouvido do companheiro, “Eu sou culpado desse ódio que você sente. Afogue esse ódio em mim, El Cid.”

El Cid se afastou e segurou o braço do amigo no alto, apertando o pulso até que doesse. Sisyphos fechou os olhos, contraiu a mandíbula e baixou a cabeça aguentando a dor. Capricórnio então percebeu que quando ele fazia isso com o outro, a dor que sentia diminuía.

“O ódio é a fonte da sua dor... Entendeu, El Cid? Desconte esse ódio em mim!”

         Sem pensar duas vezes, o cavaleiro de Capricórnio apertou o outro braço sem piedade, fazendo com que Sisyphos se contorcesse. Em seguida, mordeu com força o ombro do outro, a ponto de sangrar. Sisyphos enrijeceu o pescoço e jogou a cabeça para trás, de súbito. Isso o forçava a externalizar o que sentia, mas no instante em sua boca se abriu logo se fechou sozinha, os dentes brancos à mostra como se ele estivesse com raiva.

Então, El Cid parou e sussurrou ao ouvido do outro, a voz séria, “O meu ódio por você é muito mais que isso, Sisyphos! Já teve o bastante?”

Era uma resposta retórica, porque ele já sabia o Sisyphos iria responder. Sisyphos olhou fundo nos olhos do amigo e falou, “Eu não... vou desistir... agora...”

Então, o espanhol virou o outro homem e empurrou a cabeça dele contra a parede de pedra, fazendo com que ele batesse a testa com força. Em seguida, torceu o braço dele nas costas, puxando-o para cima o suficiente para doer, mas não para quebrar.

Ele não podia deixar de admirar Sisyphos ainda mais por isso. “Falou como um verdadeiro Cavaleiro de Atena... Sisyphos!”

Descontando sua raiva, ele puxou o cabelo castanho para trás, fazendo com que Sisyphos soltasse um grunhido de dor repentino. O próprio estava se contorcendo involuntariamente para se libertar, mas El Cid percebeu que alguma coisa estava errada. Sisyphos estava disposto a morrer por ele, ele já tinha admitido isso, mas... a expressão no rosto dele era completamente diferente de todas as outras que El Cid já tinha visto ele fazer. Era uma expressão de... satisfação?

O que eu não suporto em você...

“E-El Cid... N-Não pare agora... O seu ódio... A sua dor não era... muito maior do...do que isso?” Sisyphos estava se apoiando nele agora, com a nuca encostada no ombro dele.

É o que você está disposto a permitir que os outros façam com você só para...

Era meio assustador, mas El Cid também estava gostando daquilo. Ele estava até ofegante, como seu parceiro. Era a primeira vez que ele se sentia daquele jeito. Ele soltou Sisyphos, o virou de novo e deu um soco em seu estômago. Sagitário arregalou os olhos e caiu de quatro no chão, tossindo e segurando o abdômen. Enquanto El Cid o observava, dava longas golfadas de ar, o corpo inteiro tremendo ainda de raiva. Mas ele ainda não estava completamente satisfeito.

Só para punir a si mesmo...

         Foi então que, de súbito, El Cid começou a desfazer o cinto da calça enquanto respirava como um maníaco. Em seguida, se agachou atrás de Sisyphos e empurrou a cabeça dele contra o chão fazendo-o grunhir.

“Você quer sentir o tamanho da minha dor?! Sisyphos!” ele gritou e usou seu cosmo para cortar o cinto da calça de seu companheiro.

Quando enfim Sisyphos se deu conta do que El Cid tinha em mente, ele parou de se mexer, a boca entreaberta, e virou a cabeça muito lentamente na direção do outro. Ele teve tempo apenas de dizer...

“El... Cid...”

Foi então que sentiu uma dor aguda, pior do que o soco que recebera no estômago, pior do que a mordida que marcara seu corpo para sempre, pior do que a ferida aberta em sua testa. El Cid o tinha penetrado por trás.

(...)

Sisyphos...

A voz que o chamava era cuidadosa e séria. Quem poderia ser?

Sisyphos...!

Estava muito perto agora. Mas ele se sentia estranho. O que era isso que ele estava vendo?

Sisyphos!

Algo estava doendo sem parar. Alguém estava empurrando com força a cabeça dele contra o chão. Ele estava contendo seus gritos. Mas por quê?

Sisyphos!

Ao abrir os olhos, a primeira coisa que ele reparou foi no azul tão escuro que perpetuava um par de olhos tão estreitos. Tanto que se tornavam cruéis. Mas o que aqueles olhos refletiam agora não era crueldade. Era preocupação.

“El Cid...? O que...?”

Seu parceiro estava muito perto dele. As faces estavam muito próximas, tanto que Sisyphos conseguiu sentir um cheiro forte no ar expelido contra sua boca. De repente, o espanhol se afastou e virou a cara.

Por acaso eu vi...?

O Cavaleiro de Sagitário jurava que tinha visto a rosto do amigo corado agora a pouco. Mas isso não parecia ser provável. El Cid...? Incapaz de lidar com alguma coisa?

“...Melhor você comer um pouco para se recuperar. Eu vou explorar um pouco a caverna...” ele decidiu isso sozinho e começou a se afastar do acampamento.

A fogueira de antes ainda queimava, mas agora tinham dois espetos com uns pedaços de carne assando ao fogo, e também tinham algumas frutas silvestres acumuladas de um lado.

Num instante, Sisyphos estendeu a mão para tentar parar o amigo de partir, e até tentou se levantar se apoiando nos joelhos. “Não, El Cid! Espe—!” Mas então sentiu seu corpo inteiro doer. O peito, o braço, o pulso, o ombro, o abdômen, o pescoço, as costas, as coxas e...

Como consequência, acabou se abraçando e soltou um gemido alto de dor. Os olhos tinham se fechado com força, mas quando tornou a abri-los, encarou de novo os olhos escuros e preocupados do amigo.

“Sisyphos! Você ainda não se recuperou por inteiro do que... aconteceu ontem à noite.” El Cid segurava-o apoiando uma mão nas costas dele e a outra no peitoral definido, enfaixado e ainda nu.

Ontem à noite...? Foi então que tudo veio de uma vez só em forma de flash, em sua mente...

[[Sisyphos não conseguiu conter o grito de dor dentro de sua garganta. Sua voz ecoou pelas paredes de rocha ao redor deles, e parecia que cada vez que ela se repetia, a dor que ele sentia aumentava ainda mais. Ele se contorcia para tentar escapar, mas El Cid era preciso e o segurava habilmente, uma mão empurrando sua cabeça contra chão e a outra torcendo o braço de Sisyphos atrás das costas dele.

As estocadas eram cruéis e fortes, de um modo que Sisyphos tinha que se segurar com todas as forças no chão com a sua mão livre para não sair do lugar. Mas por que ele estava usando suas forças para se segurar no chão ao invés de utiliza-la para fugir?

“Cid! Pa-pare!” ele gritava em vão. Ele sabia que El Cid não iria parar até estar completamente satisfeito.

Além do que, ele não se sentia daquela forma. Ele não queria que El Cid parasse. Esse era o tamanho da dor que o cavaleiro sentia, dor que ele próprio tinha causado ao seu amigo tão estimado. Mas essa não era a única razão para El Cid não parar o que estava fazendo com ele...

A dor foi desaparecendo aos poucos e substituída por um outro sentimento que Sisyphos tinha sentido poucas vezes antes. E o calor só havia aumentado ainda mais. Mas o que era isso tudo? O Cavaleiro de Sagitário ainda estava um tanto chocado com tudo que estava acontecendo, mas ele não conseguia acreditar no que o seu corpo parecia lhe dizer.

“Cid... Nã-Não... Não pare!” então sentiu seu companheiro afundar-se por inteiro dentro dele como resposta. Isso o forçou a fechar os olhos com força.

Então, o espanhol mudou a posição de suas mãos. Com a esquerda ele passou a segurar o companheiro pelo bíceps com força, enquanto a direita apertava a cintura dele com tanta vontade que cravava as unhas na carne tão suada e aquecida. Ele sabia que aquilo deixaria um marca que não sumiria tão facilmente, mas isso não importava. El Cid conseguia sentir um prazer incomparável crescendo cada vez mais.

Enquanto isso, Sisyphos se chocava cada vez mais com a reação do próprio corpo a tudo isso. Suas mãos manipulavam rápidas o próprio membro que já havia se enrijecido há algum tempo, em perfeita sincronia com El Cid. Ele não compreendia o porquê de tudo aquilo, mas ele conseguia sentir o prazer que sentia crescer mais e mais à medida que ele se tocava.

Sisyphos começou a se subir muito rápido até as estrelas, até o seu cosmo parecia descontrolado, e ele tentou alertar El Cid disso dizendo, “El Cid! E-Eu vou...!”

A verdade era que El Cid também estava prestes a explodir, e seu cosmo também parecia ter vida própria. “Sisyphos! Ah—!”

Os dois cosmos se fundiram numa luz intensa que parecia não ter limites, enquanto os dois cavaleiros gritavam como se prontos a lançar uma técnica poderosíssima. Parecia-se muito com o famoso Big Bang, que representava o limite máximo que um cosmo poderia alcançar...]]

Sisyphos não conseguiu impedir suas bochechas de ficarem profundamente coradas enquanto as cenas se desenrolavam em sua mente. Numa tentativa de esconder isso do outro, ele baixou a cabeça.

“Você está bem?” perguntou o cavaleiro de Capricórnio. Seu olhar, que raramente expressava emoção alguma, agora estava genuinamente preocupado.

Sisyphos penetrou aquele olhar com seus olhos azuis e sorriu. “Deixando a dor física de lado, eu estou bem...” Por que ele estava se sentindo tão envergonhado? “E você?”

El Cid fechou os olhos e baixou a cabeça para examinar o hematoma na cintura de Sisyphos. Com a mão direita ele apalpou a marca que ele próprio havia deixado ali, e respondeu. “Graças a você...”

Ao ser tocado por seu companheiro, Sisyphos fechou os olhos e tocou o braço dele com sua mão gentilmente. Então, ele foi puxando El Cid de leve para si, para um abraço, envolvendo o pescoço tão forte dele com seus braços. E o espanhol se permitiu ser abraçado daquele jeito sem resistir ou reclamar. A verdade era que ele passara a apreciar o toque de Sisyphos tanto quanto Sagitário apreciava o dele.

Depois de alguns minutos abraçados, Sisyphos se afastou o suficiente para fitar nos olhos de seu amigo, mas seus olhos foram parar em outro lugar.

“Queria te beijar...” ele sussurrou.

El Cid estava esperando aquelas palavras. Ele conhecia Sisyphos bem até demais. Mesmo assim, seu rosto foi tomado de um calor súbito. Sua boca estava entreaberta, e sua respiração estava acelerada. Ele era capaz de sentir um cheiro tão masculino vindo de Sisyphos. Mas não disse nada, concordando silenciosamente com a colocação do outro.

Aos poucos, Sisyphos foi fechando o espaço entre as duas bocas. “Você quer também, não é?”

“Sisyphos...” sussurrou de volta lentamente.

“...isso não é um sonho, certo?” foi fechando os olhos enquanto segurava o rosto do outro com cuidado.

Sisyphos...ele também fechou os seus olhos, enquanto apertava a cintura de seu parceiro com vontade.

Quando os lábios se tocaram, parecia que tinha sido uma eternidade desde que isso acontecera. E também parecia que eles deveriam continuar se tocando por outra eternidade. O calor tinha se intensificado ao redor deles dois, e não era devido à fogueira que parecia empalidecer diante do fogo que crescia entre eles.
Enquanto Sisyphos se deixava levar pelo momento, foi empurrando El Cid contra o chão até ele ficar por cima, enquanto o espanhol apertava ainda mais sua cintura máscula. Então, começou a lamber a língua do outro com um apetite que mais parecia insaciável.
Mas então El Cid inverteu as posições e se afastou para tirar a própria camisa, atirando-a longe. Ele pegou um braço de Sisyphos pelo punho e o segurou contra o chão enquanto que a outra mão segurava o queixo dele com força. Sisyphos teve apenas tempo de gemer de dor, pois logo teve sua boca calada com outro beijo.

El Cid estava perfeitamente posicionado entre as pernas do outro, e pressionava o corpo dele com o seu contra o chão. Mas então, Sisyphos partiu o beijo, virando a cabeça de lado, ofegante. Foi então que El Cid percebeu...

“D-Desculpa! Você ainda está...”

Mesmo sentindo dor, Sisyphos sorriu para o amigo, “Nã-Não, fui eu quem começou...”

Sisyphos ergueu a cabeça e encarou o amigo com seus olhos de mel semiabertos. Aquele momento em que seus olhares se focavam apenas um no outro parecia que iria durar para sempre. El Cid fez uma expressão de dor e se afastou do amigo, dando-lhe as costas e encarando a fogueira em silêncio.

Sisyphos permaneceu deitado, e então ele disse, “Eu nunca quis que você sofresse daquele jeito por mim. Se eu soubesse disso antes, eu...”

El Cid podia sentir aquela dor familiar voltando. Mas ele percebeu então que, embora ficar próximo do amigo fosse doloroso, quando eles se tocavam a dor passava da mesma forma que a chuva de inverno passava sob o calor da primavera.

“Mas eu tenho que proteger as pessoas que eu amo, El Cid. Mesmo que seja doloroso, eu nunca poderia me perdoar se alguma coisa pior acontecesse com você enquanto eu estivesse por perto.” Sisyphos continuou, com a voz baixa e dolorida.

Desde o começo, você só queria...

El Cid fechou os punhos, não de raiva, mas de tristeza. “Eu prometo Sisyphos. Eu vou estar sempre ao seu lado. Sempre...”

Eu não posso te odiar porque...

“...porque eu—“

Sisyphos impediu que ele continuasse abraçando-o forte por trás. “Eu sei... Eu sei.”

Eles se separaram depois de alguns momentos abraçados, e o espanhol se levantou do chão, vestindo sua camisa de novo. “Eu vou explorar a caverna. Fique aqui e descanse.”

“Entendido.”

(...)

Quem acreditaria que os boatos não eram apenas boatos? A caverna não só continha segredos antigos com relação à Hypnos, quanto também informava que existiam quatro outros deuses que serviam a ele, responsáveis por manter o Mundo dos Sonhos guardado a sete chaves.

Analisando um desenho encravado diretamente na parede de pedra, Sisyphos lia uma passagem em voz alta, “A alma daquele que for no Mundo dos Sonhos aprisionada, num sono profundo eternamente descansará, e dele jamais despertará...”

“Soa mais como uma prisão...” El Cid segurava uma tocha e se inclinava para enxergar melhor um desenho rupestre.

“É claro... Agora faz tudo sentido.” Sisyphos levava uma mão ao queixo. Então ele se levantou, e continuou. “Se o Submundo é um lugar onde as almas dos mortos são julgadas e punidas, então o Mundo dos Sonhos é o lugar onde as almas são mantidas prisioneiras, incapazes de reencarnar.”

“E esses quatro deuses são os responsáveis por manter essa prisão funcionando.” El Cid concluiu.

Sisyphos estava sério. “Precisamos informar ao Grande Mestre. Talvez isso nos dê alguma vantagem contra o exército de Hades.”

Capricórnio concordou silenciosamente e observou seu parceiro sorrir e pegar na mão dele, guiando-o numa direção específica que os levaria até a saída.

Com uma expressão confusa, El Cid perguntou, “O que você está fazendo?”

“Precisamos voltar ao santuário para informar o que descobrimos ao Grande Mestre. O que significa que precisamos sair dessa caverna primeiro, não?” Sisyphos olhou para ele confuso também.

“Eu sei muito bem o caminho, sabia? Não preciso de você para ficar me guiando.” Embora ele tenha dito isso, não fez nenhum esforço para se soltar.

Sisyphos riu envergonhado, “Nã-Não, é que... Eu pensei que... Depois do que aconteceu ontem... Er...” seu rosto estava completamente corado.

O espanhol teve que conter uma vontade insuportável de abraçar Sisyphos, mesmo sem saber ao certo por quê. Ao invés disso, ele virou a cabeça para o lado e suspirou. Sisyphos parecia feliz demais simplesmente em segurar a mão dele, então El Cid não ousaria tirar aquela felicidade tão humilde dele.

“...Seu rosto combina com esse seu sorriso...” El Cid pensou alto.

O Cavaleiro de Sagitário virou rápido com seu sorriso, “Você disse alguma coisa?”

El Cid ergueu as sobrancelhas e apontou para frente. “Sem saída.”

Ao confirmar a afirmação do amigo, Sisyphos coçou a nuca, largando momentaneamente a mão do companheiro. “Mas eu tinha certeza que era por aqui...”

Suspirando mais uma vez, El Cid revirou os olhos. Então agarrou a mão de Sisyphos e saiu guiando-o por outro caminho, “Vem, a saída é por aqui.”

De início, Sisyphos apenas observou o que estava acontecendo, mas então sorriu e falou, “Certo!”

Se alguém do Santuário os visse de mãos dadas, causaria problemas para a reputação dele, El Cid pensava. Mas por enquanto isso não importava. Afinal, a dor que ele geralmente sentia tinha desaparecido para sempre...
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Fin