Cerise - Cigarros e Charutos


Foi meio dia quando aconteceu. Ele estava checando a condição das celas quando se deparou com um sujeito deitado, aparentemente preso, dentro de uma delas. O sujeito vestia roupas caras e de marca – não que ele entendesse de moda, mas ele se acostumara a lidar com todo o tipo de gente – e ainda por cima fumava um cigarro. Ele estava deitado com a barriga pra cima lá dentro usando os braços como travesseiros, e parecia estar dormindo tranquilamente.
Muita coisa naquela cena o perturbou, uma delas seria como um prisioneiro arranjou um cigarro e o acendeu? Mas talvez a perturbação maior fosse o fato dele desconhecer completamente o suspeito, o que era impossível pois ele era o delegado daquela delegacia. Ele sabia de tudo que se passava ali como se fosse a palma da própria mão.

“Ei, acorda aê!” bateu na grade algumas vezes causando um som alto e um tanto desagradável.

“O que foi? Que barulheira...” o suspeito se queixou, mas não moveu um único músculo. Permaneceu deitado fumando seu cigarro com olhos fechados.

“O que você pensa que tá fazendo?” ele perguntou com um tanto de raiva.

“O que parece que eu estou fazendo?” o sujeito parecia pouco incomodado.

Aquilo começou a irrita-lo. E logo, Thomas decidiu mostrar os dentes. “Muita coragem sua falar com o chefe do lugar desse jeito, vagabundo.”

Ao ouvir a palavra ‘vagabundo’, o suspeito abriu os olhos e analisou Thomas da cabeça aos pés. Então abriu um sorrisinho malicioso e se sentou na cama de metal da cela, encarando-o agora.

“Ora, ora... Você deve ter muito tempo livre pra ficar zanzando por aí desse jeito, senhor delegado. O que posso fazer por você?”

Alguma coisa no jeito que o sujeito falou a última pergunta fez Thomas pensar que estava flertando. Mas isso não passava de uma impressão que ele teve, e ele decidiu ignorar.

“Quem é você e o que está fazendo aqui?”

O sujeito parecia estar distraído com alguma coisa. Ele encarava o corpo de Thomas (que tem a mania de andar apenas com a jaqueta do uniforme aberta, exibindo seus músculos bem definidos) com um olhar de fogo.

“Olha só pra você, andando por aí mostrando esse corpo tão escultural...” o suspeito falou baixo, quase que para si mesmo.

Thomas nunca pensou que aconteceria um dia, mas aconteceu: pela primeira vez em sua vida ele se sentiu levemente desconfortável por estar vestindo a jaqueta aberta. Bem levemente desconfortável; não o suficiente para causar-lhe vergonha, mas o suficiente para deixa-lo incomodado com o olhar do homem diante de si.

“Você deve malhar todo dia, hein? Senhor delegado?”

“Sou eu quem faz as perguntas por aqui!” ele quase vociferou. “Quem você pensa que é?”

O sujeito sorriu daquele jeito malicioso de novo e tragou longamente, antes de expelir a fumaça desleixadamente. Então, falou, “Você não é o chefe? Você devia saber de tudo que se passa nessa delegacia.”

Aquele sujeito estava... provocando-o de propósito? Parecia pouco provável, mas era isso mesmo que ele estava fazendo. E Thomas logo, logo identificou a forma certa de lidar com isso.

“Será que eu tenho que levar você pra sala de interrogatório?” ele sorriu pro sujeito.

A ameaça surtiu pouco efeito, mas o sujeito riu e respondeu, “Não precisa disso tudo! Se você quer ficar sozinho num quarto comigo é só pedir, seu delegado.” O suspeito se levantou e se encostou nas grades. Então estendeu a mão com um sorriso. “Yamato, professor da St. Clavier.”

Thomas encarou a mão do sujeito por um segundo, encarou ele de novo, e cruzou os braços. “Da St. Clavier, hein?”

Ele conhecia muito bem aquele lugar. Era a academia só para meninos mais famosa do país, e a mais cara também, com excelentes professores e uma educação de primeira classe. Só em se frequentar a academia lhe fornece um grande status, imagine trabalhar lá.
Thomas conhecia também o diretor de lá, Vivien St. Clavier, um homem elegante e cheio da grana, mas com um passado limpinho demais pra alguém com tanto dinheiro e influência. Ele já pensou em investigar o granfino, mas o diretor era intocável graças às suas conexões.
         Então o delegado entendeu porque o suspeito diante de si estava agindo dessa forma. Provavelmente se achava tão intocável quanto Vivien, por trabalhar para ele.

“Você já foi lá? Tenho um quartinho no dormitório dos professores. Não é grande coisa, mas você bem que podia passar lá depois, sabe? Pra desestressar.”

Thomas riu e balançou a cabeça, “Você não faz o meu tipo. Você deve se dar muito bem com seu chefinho pra ter tanta audácia.”

“Ah, ciúmes não combina com você, seu delegado! Aliás,” veio o sorrisinho safado de novo, “o Vivien e eu somos só amigos. Sabe como é amizade entre homens bonitos...”

“Por que um professor da St. Clavier estaria preso aqui?”

O outro tomou seu tempo para tragar longamente e depois expirar a fumaça no ar, saboreando cada segundo. Só então, ele respondeu, “Você se lembra de alguém que foi preso recentemente cujas estaturas físicas batam com as minhas?”

O delegado pensou um pouco, mas logo constatou que não. Mas também não daria a satisfação de responder a pergunta do sujeito.

Mesmo assim, o professor sorriu, “Agora pense bem, o que será que isso quer dizer?”

...que você não é um qualquer... Thomas encurtou os olhos ao declarar mentalmente.

Depois de rir guturalmente, o tal professor tragou os restos finais do seu cigarro e o deixou cair no chão, para lentamente apaga-lo com o sapato. “Evidência.”

 Então, ele tornou a encarar Thomas com aquele olhar malicioso de antes. Os olhos passeavam pelo corpo do delegado de uma forma tão asquerosa e pervertida que o próprio delegado até deu um passo para trás; era claro que aquele homem se tratava de algum maníaco, exceto a parte do maníaco. O que ele seria então?

Suspirando calmamente, o sujeito fez sua aura asquerosa de maníaco desaparecer e a substituiu por uma de tranquilidade. “...pois é. Você não vai me dizer nem o seu nome?”

“Responda minha pergunta.” Thomas insistiu mais uma vez.

O professor encarou-o mais uma vez, e roubou o charuto da boca do delegado com um movimento rápido da mão. Thomas tinha sido pego de surpresa, algo que ele expressou com uma sobrancelha erguida.

“Olha, o seu é bem grande, né?” ele alisou delicadamente o charuto em mãos para depois coloca-lo na boca, e fuma-lo calmamente em seguida. “Você não tá compensando por alguma coisa pequena que você tem, tá?”

Thomas já havia descartado a possibilidade daquele sujeito ser muito idiota, mas o que ele poderia ganhar provocando o delegado de polícia, estando por trás das grades? Algo a respeito daquele sujeito deixava seus sentidos de policial em estado de alerta.

Tão calmamente quanto o sujeito, Thomas cruzou os braços, sorriu e se afastou. Ele não cairia nas artimanhas de um cara daqueles tão fácil assim. Então, fez que não com a cabeça e se retirou da presença do homem. Ele faria melhor: investigaria com toda a calma e tempo do mundo aquele sujeito. Talvez ele fosse a peça chave que o levaria a Vivien St. Clavier, finalmente...

Enquanto se afastava, pôde ouvir o sujeito declarar, “Foi um prazer, Thomas Wyatt.”
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(continua?)

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