Sobre o Afastamento de David


     Ele me segurava em seus braços enquanto suas mentiras penetravam o véu da minha iminente melancolia, apertando – que estaria em breve aos pedaços – meu coração com palavras suaves de esperança. Por que as coisas tinham que acabar desse jeito? A minha felicidade estaria mais do que assegurada se eu simplesmente o tivesse ao meu lado, como sempre tive desde décadas passadas. O mero pensamento dele morto de fato e deixando de existir me aterrorizava profundamente, para dizer o mínimo.

     As pontas dos meus dedos pressionavam o tecido frio do seu sobretudo de couro preto, o que eu mesmo havia escolhido para ele numa outra noite quando eu estava lidando com uma conferência de negócios bem no meio de um Shopping. Se eu concentrasse os meus sentidos sobrenaturais o suficiente, eu podia facilmente ainda sentir o distinto cheiro daquela lojinha cara. Enquanto eu me segurava nele, ele me apertava ainda mais fortemente. E eu sabia o que aquilo significava.

“Daniel...” sua voz estava tão quebrada quanto seu olhar sobre mim, os lábios se movendo silenciosamente, mas pareciam resplandecer como se feitos da própria poeira que compunha o Firmamento.

     Ele precisava dizer nem mais uma palavra sequer. Eu sabia excelentissimamente bem o que ele estava tentando com toda sua força me dizer. Embora ele estivesse me encarando, e esperando que eu olhasse para ele, eu não podia me forçar a fazer tal ato, pois eu temia olhar-lhe os olhos. Eu temia encarar naqueles olhos dourados e observar minha própria imagem se desfazer em vários pedaços.

“Daniel, olhe pra mim.” Ele ordenava o impossível de mim.

     Naquele momento, ninguém na Terra poderia me forçar a olhar dentro dos seus olhos, não obstante o quão poderoso fosse. Ainda assim, ele consegue gentilmente levantar minha face segurando o meu queixo. Seus dedos perdidos por um momento nos meus lábios, traçando o que pareciam, para mim, ser, talvez...

...ainda assim, de alguma forma, ele consegue fazê-lo. Mas enquanto eu encaro aqueles olhos, eu não conseguia me ver. E aquilo me deixou, de tudo, ainda mais desesperado. “David, por favor, não me deixe! Eu pensarei em algo em sua defesa. Nós diremos que foi um acidente!” minhas mãos agora viravam punhos e agarravam o couro, enquanto eu tentava não gritar e espernear.

Ele negou meu conselho com a sua cabeça, e segurou os meus ombros. “O Conde pode não ter sido tão conhecido, mas ele era um Ancião de Oitava Geração. Além do que, aqueles que possuírem Auspícios verão os traços tóxicos do sangue dele em mim. Eu apenas lhe colocaria em perigo se eu permanecesse aqui.”

“Mas eu bebi também! Qualquer um com Auspícios também o verá em mim! Eu irei com você, então!”

Pacientemente, ele sorriu e acariciou o meu cabelo, como ele sempre fazia para acalmar os meus nervos. “Isso me lembrou da época quando você não queria que eu fosse para a escola e lhe deixasse aqui. Você sempre conseguia elaborar as razões mais convincentes para que eu não partisse.”

“David... por favor, não! Eu não suportaria um único dia sem você aqui. O que eu direi aos outros membros da família?” minha visão começava a ficar levemente vermelha.

“Você dirá que eu fiz tudo sozinho.” Ele me encarava seriamente agora.

“Mas... Mas então! Eles o caçarão como um animal! Uma Caçada de Sangue!” minha cabeça caiu, já que eu não conseguia mais segurar minhas lágrimas sangrentas.

“Você me caçará também. Não deixe que eles desacreditem e expulsem você... Sem o Conde e eu, eles o farão o Senhor da família Reinsworth, e você vai aceitar o posto. Você compreendeu minhas palavras?” a última parte foi falada num tom sério muito específico.

“Ma-Mas—!”

“Daniel!” ele me balançou, temeroso de que eu perdesse o senso da realidade, mas tragicamente, eu permanecia cruelmente preso à ela. Enquanto eu olhava para ele de novo partido, ele enxugava o sangue das minhas bochechas gentilmente com sua boca e me sorriu assim que havia terminado. “Nós podemos estar separados fisicamente, mas nossos corações estarão sempre unidos. Tome...” ele tirou o pingente de coração ricamente detalhado de ouro puro que eu tinha lhe dado como presente de aniversário e o colocou em volta do meu pescoço, demorando seu olhar sobre ele. Dentro, uma fotografia antiga de nós dois ainda jovens e vivos. “Isso sempre me deu forças quando eu me senti perdido...”

     Involuntariamente, eu o larguei e fiquei olhando devastado para nada em particular. Então, minha mão começou a procurar algo dentro do meu bolso e o abriu na frente de nós. Era um pequeno relógio de bolso dourado e muito antigo, com a figura do Santo Graal encravado nele. Ele me dera quando ainda éramos crianças, e disse que era um tesouro deixado por seus pais.

Eu gesticulei para que ele ficasse com o relógio enquanto dizia apaticamente, “...para que uma parte de mim posse lhe ser útil.”

Com um movimento brusco, ele estava me segurando de novo, os braços cuidadosamente apertando o meu corpo contra o dele enquanto ele afundava seu rosto no meu pescoço. Eu implorava para que ele afundasse suas presas, me bebesse por inteiro e acabasse com a tortura que seria minha existência daquela noite em diante. Entretanto, eu conseguia apenas me forçar a fazer nada além de tremer e soluçar.

Finalmente, ele gentilmente me empurrou e virou de costas inumanamente rápido, mas parou bem diante da janela aberta. “Uma vez que eu vá, você deve informar os outros imediatamente para que eles não suspeitem de você.” Ele estava me encarando uma última vez para se certificar de que eu seguiria suas instruções.

Como eu apenas afirmei com a cabeça como resposta, me segurando no lugar, ele sorriu uma última vez enquanto subiu na janela e declarou, como se fosse o ‘The End’ num filme moderno qualquer, “Adeus, meu coração...”

No segundo seguinte, ele já tinha partido, levando consigo, finalmente percebi, de fato, o meu coração...


Att,
Daniel Reinsworth

Nenhum comentário:

Postar um comentário