Já tinha passado da sua hora de dormir, mas
ele não dava a menor importância àquilo. As Deusas ditaram que ele fosse àquele
clube noturno naquela noite, e o que elas queriam, ele se certificaria de que
elas tivessem. O pequeno desconforto nascia do fato dele ter passado tanto
tempo longe daquele tipo de lugar que ele se sentia como segregado do tipo de
pessoa que ali habitava.
Ele estava, aparentemente, no clube mais
famoso da cidade – e um bastante caro também. Por que as Deusas o enviariam a
um lugar daqueles se ele não tinha absolutamente dinheiro algum para ficar
gastando daquela forma estava além dele saber. E já que ele acreditava tão
cegamente naquelas divindades, ele seguiria seus comandos de boa vontade. Oras,
ele nem estaria vivo hoje, não fossem elas!
Por isso ele gastara duzentos e cinquenta
apenas para adentrar tal lugar sem reclamar. Se elas dizem que ele precisa
estar ali, que assim seja. Elas também disseram que ele encontraria o Diabo
ali, e que o mesmo o deixaria a alguns passos mais próximo de seu objetivo.
Oriel leBlanc estava além da alegria em si, de fato.
Enquanto ele se sentava no bar, com seu
coquetel gelado de morango sem álcool entre dedos finamente decorados com unhas
perfeitamente pintadas, ele não conseguia evitar pensar a respeito do sujeito
que encontraria. Desta vez ele não tinha nenhuma pista sobre a cor dos cabelos ou
dos olhos, não. Tudo que ele sabia – além das características claras
representadas pela carta do Diabo – era que ele identificaria o sujeito tão
logo depositasse seus olhos nele. Então, talvez até que o tempo do encontro
predestinado chegasse, ele devesse se divertir um pouco.
Quando ele sorriu para si mesmo com tais
pensamentos, o barman depositou outra bebida em sua frente junto com um sorriso
sensual.
“Uma
dose pra cada sorriso que você der hoje... Que tal?”
Oriel
analisou o homem diante de si, riu teatralmente, e disse, “Mas, ora, não
estarias em desvantagem, meu precioso Stephano? Pois, ao competir comigo,
estarias enfrentando um adversário que não se delicia com os néctares amargos
do mundo! Acreditas estar lidando com Calibã, quando na verdade estais lidando
com a própria Juno!”
A declaração apenas fez o homem rir e beber
sua própria dose de seja-lá-o-que-for que ele estivesse bebendo.
“Você
é uma graça, princesa!” falou o barman, se retirando em seguida para atender
alguém do lado oposto.
Oriel tinha se acostumado a ser tratado
de tal forma por todos, não apenas por homens, mas por mulheres também. Em
verdade, ele era capaz de facilmente identificar quando alguém estava flertando
com ele numa questão de segundos. Bem, ele sabia que era lindo, maravilhoso
até, e acreditava que os únicos seres que estavam acima dele eram as próprias
Deusas – suas amáveis mães – então era natural que os meros mortais se
sentissem atraídos por ele.
Ele ainda teria que encontrar com um
único mortal de carne e osso que não o amasse ou o odiasse. Logicamente sem
contar com as pessoas que o desconheciam por inteiro – fato que em breve
mudaria.
Foi quando ele bebeu novamente de sua
ambrosia particular que a mariposa da sua atenção foi atraída para a chama tão
brilhante a alguns banquinhos de distância. Oriel estava agora olhando para um
esboço de homem másculo: olhos japoneses, e cabelos curtos e negros, corpo
grande e cheio de músculos revestido de uma camisa social de botões cinza claro
com gravata vermelha, e calça social preta com um cinto marrom escuro. Sapatos
marrons, também sociais, e um relógio de pulso em seu antebraço esquerdo
completavam a figura.
O homem era incrivelmente sexy e a
barba malfeita só fazia Oriel querê-lo ainda mais. Entenda, as Deusas eram amantes
ciumentas, e qualquer desvio de atenção ou de amor as forçariam a abandoná-lo à
sorte do mundo. Elas tolerariam qualquer relação sexual que ele viesse a ter. A
única proibição era o amor e o romance – ele jamais poderia se permitir se
apaixonar por alguém que não fossem as Deusas dele. Uma troca justa por todo o
dinheiro e fama do mundo, não?
Por isso, quando o homem percebeu estar
sendo observado e seguiu em sua direção, Oriel se certificou de jogar seu longo
cabelo descolorido com as pontas lavanda para o lado oposto, tentando parecer
não tão interessado quanto estava.
O garanhão sentou-se bem ao seu lado e
Oriel pôde ver que ele deveria estar nos seus trinta e poucos anos. Apenas
agora ele percebeu que além de estar bebendo o que parecia ser uísque puro, o
homem estava fumando. Só então percebeu: aquele sujeito se encaixava
perfeitamente no papel de Diabo que suas amadas lhe falaram.
“O
que ‘cê tá bebendo?” ouviu a voz rouca do outro ao seu ouvido.
Ele
encarou-o com um sorriso, “Um coquetel de morango sem álcool, o que mais?”
O
homem franziu as sobrancelhas, incrédulo por um instante, então se virou para o
bar e disse, “Tão exótico quanto parece, hein?” fez um gesto para o barman
trazer outra dose, e quando este a trouxe, o homem deslizou-a para Oriel
dizendo, “Bebe isso aqui.” E virou a outra dose que estava segurando sem
pestanejar.
Ele
encarou a dose generosa de uísque com desgosto, e tornou a olhar para o homem.
“E então falarás de fé e amor eternos, de uma única urgência poderosa – fluirão
tais coisas tão facilmente de teu coração, caro Mefisto?”
O
homem riu de bom grado, “Fé e amor eternos? Num viaja não, delícia!” então
percebeu que Oriel não tinha bebido a dose oferecida. “Vai mesmo me recusar
agora, depois de ter me sacado todinho?”
Oriel estava querendo o homem, não poderia
negar, mas como é que tal indivíduo poderia guia-lo? O homem diante de si
parecia de fato ser a encarnação do Diabo do tarô, mas de forma alguma tinha
Oriel sentido algo além da vontade ensurdecedora de realizar atos obscenos com
o tal sujeito.
“Perdões,
caro Mefisto, mas Oriel leBlanc não pode ingerir álcool. Ele pode inegavelmente
divertir-se mais do que indivíduos alcoolizados, porém – isso em verdade te
digo.”
O
homem ficou alguns instantes olhando para ele e então balançou a cabeça
negativamente, bebeu a outra dose e se levantou do banquinho com um suspiro
cansado. Então estalou os ossos do pescoço e falou, “Tá bom, Oriel. Vamo.”
Deixou uma quantia de dinheiro no bar e puxou-o pelo braço.
No instante seguinte, Rosiel foi guiado até
um dos pequenos quartinhos na área
VIP do bar, onde ninguém além deles dois passaria a habitar ali. O homem atirou
Oriel calmamente contra a parede no canto mais escuro que encontrou, para em
seguida agarrar-lhe o quadril e beijar-lhe os lábios com uma fome sufocadora.
Oriel estava estático. Jamais encontrara um
amante tão... ardente quanto aquele homem. E pensar que nem ao menos sabia seu
nome. Mas, se antes desconfiava que o dito cujo não era, de fato, Mefisto,
agora se certificava por inteiro. Jamais lhe fora revelado pelas Deusas que ele
teria aquele nível de relação com o famoso Diabo. Aquilo não passava de uma
coitarca.
Quando o homem partiu o beijo (mas não
antes de penetrar-lhe a boca com a língua afiada como uma espada), Oriel podia
sentir o homem roçar seu pacote contra sua virilha e sorrir-lhe no fim ao ser
capaz de extrair um gemido de puro apetite sexual do tarólogo.
Então,
com uma mão, ele se apossou do rosto alheio, apertando-lhe as bochechas até
doer. “Quero foder essa sua boquinha doce.”
Oriel não se considerava um romântico
incurável. Nunca. Mas isso também não significava que ele gostava de ser
maltratado. Ele se considerava uma semi-divindade, e como tal esperava ser
tratado, especialmente por seus amantes. Aquele homem não era o Diabo – ele era
a Torre, mergulhando infinitamente numa espiral de auto-destruição. Ele era um
mau-presságio em pessoa.
Ao perceber a verdadeira natureza do homem,
Oriel sabia que não podia permitir que elo algum se desenvolvesse entre eles. A
Torre era a Deusa da Ruína, e impiedosamente castigava a todos com caos e
destruição, e de todas as suas irmãs, era a mais severa e ciumenta. Ela não
hesitaria em afogar Oriel em seu mar da Ruína. Ele precisava escapar!
“Pare
agora, Babel, ou receba a fúria divina.” Oriel falou alta e claramente para o
homem no tom mais sóbrio e sério que possuía.
“É
o que?” Mas o homem o virou de costas, prendendo-o numa chave de braço. “Mas a
gente mal começou...”
“Por
que essa cena não me surpreende?” uma voz grave soou divertida de trás deles.
Ao
virar a cabeça, o garanhão nomeou o possuidor da voz, “Vivien? É você mesmo?” E
aos poucos o homem foi soltando Oriel e se virando para encarar o terceiro.
Uma vez livre, Oriel se virou para encarar
seu salvador também, por assim dizer, e recebeu o choque, a epifania. Estava olhando
agora para um cavalheiro com olhos sagazes. Não se tratava de um homem alto ou
particularmente bonito, mas era charmoso, incrivelmente charmoso. Devia medir
uns 180cm e tinha um corpo robusto, mas não era musculoso como seu conhecido.
Sua pele era de um tom claro e seus cabelos bem escuros eram lisos e curtos. Tinha
rugas pouco evidentes, em especial perto dos olhos e da boca.
O tal de Vivien havia se perdido no mundo
da formalidade, Oriel pensou, pois usava um terno elegante e tão negro quanto
seus cabelos com uma gravata de tons neutros. Seu cabelo estava impecavelmente
arrumado e seu olhar era afiado, do tipo que incomodaria de certo quando muito
encarado.
“Mon dieu...” Oriel sussurrou para si
mesmo com uma mão cobrindo a boca semi-aberta.
.
.
.
(continua?)
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