Fantasmas com Sapatos de Aço

Ela é uma criança neutra, pele cor de baunilha e de creme-craque, o que faz com que sua família seja superprotetora e gentil com ela. Ela sempre tinha exatamente aquilo que precisava, na quantidade certa, e nunca tinha nada de particular para dizer aos pais e a um irmão muito querido.
Ela usa meias em pares que combinam, mantém o cabelo longe do rosto e tem certeza de sorrir em companhia educada. A mãe dela penteia o seu cabelo aos Domingos, e escorrega uma bolsa com um punhado de chiclete e um pequeno computador em suas mãos de dedos estreitos. Ela não devia nunca ficar entediada, não com uma família tão atenciosa. Ela pega o trem bala para escola sozinha, e o pega de volta sem reclamar.

Mas no seu jeito baunilha e creme-craque de ser, ela é capaz de sentir algo como ressentimento por aquelas pessoas, uma pequena, silenciosa e preocupante coisa que faz com que o seu sorriso se alargue um pouco demais. (“Entusiasmo e esforço irão compensar por qualquer falta de habilidade que você tenha, o avô dela diz, um mercenário aposentado que não possui mais a perna esquerda e a maior parte dos dedos na mão direita.) Ela tenta não pensar muito a respeito disso porque ela ama sua família naquele jeito brando dela, que deve ser simplesmente o suficiente.

A primeira coisa que ela faz e que sempre a deixa se sentindo menos branda é aos Sábados, e é não fazer nada mais do que se sentar próximo ao seu avô e pai enquanto eles assistem às notícias no jornal. Mas não são notícias, não mesmo, porque as notícias nunca foram tão interessantes a ponto de fazer closes de caras redondas e com formato perfeito de coração com bocas abertas e gritando sem som algum. É uma execução ao vivo, seu avô lhe disse, de uma das feiticeiras que eles encontraram se escondendo em Trabia.

“Ouvi que a vadia estava numa vila pesqueira, pegando salmão e atum igualzinho a um homem,” o avô dela ri, coçando a jaqueta do seu antigo uniforme ‘SeeD’. A mãe dela briga com ele por falar palavrão, mas ele só continua a rir. “Não foi muito esperta, tentando correr mais que os cães e a milícia.”

Por um momento ela senta e assiste a televisão, ignorando sua família e, ao invés disso, assiste aos olhos castanhos da feiticeira na tela, largos e raivosos e temerosos tudo de uma só vez. Ela já se sentiu daquele jeito uma vez, quando ela sonhou que um monstro estava perseguindo-a, estalando seus dentes ossudos e soprando veneno contra um lado de seu rosto enquanto ela corria. Ela podia sentir um milhão de coisas se revirarem, um milhão de coisas morrerem, tudo de uma vez e podia sentir cada pedaço que compunha todas aquelas coisas com tanta certeza quanto o sol. Era tão intenso que a sufocava.

Tique, cláque, disseram os dentes do monstro. Eles eram muito afiados e secos daquele lado da mente dela. (E eles tem rabos de chicote, ela pensa, igualzinho ao que ela via nas revistas científicas que ela tinha em seu quarto.)

Seu coração bateu e quase que se partiu dentro de seu peito, tão grande fora seu medo na hora. Para onde vão crianças pálidas quando elas não tem nada para cobrir seus ombros? Para onde ela iria, com seus olhos grandes e boca vermelha ofegante, exceto para a beira de seu sonho e direto para fora da cama?

Mas os meus olhos, ela pensa, meus olhos nunca foram tão redondos e sombrios e infinitos, como um enorme buraco, como são os dessa moça. Eles são insondáveis e tão frios de terror. Considerando os seus próprios olhos cinzentos, ela acha que eles nunca poderiam ficar daquela forma.

“Eles vão matá-la?” ela pergunta. Ela achou que o monstro a mataria, então, por que essa mulher com o mesmo rosto que ela não pensaria a mesma coisa do oficial de uniforme preto ao lado dela? “Eles vão matá-la, Mamãe? Porque ela parece estar com muito medo.”

O seu avô ri (e ele parece fazer muito isso), enquanto seu pai e mãe olham para ela com olhares esquisitos. Ela geralmente é uma criança tão complacente e aceita tudo com seus sorrisos minguantes de dentes brancos pequenos. Quando o seu pai se vira para responder, o avô o interrompe, e seu irmão, apenas alguns anos mais velho que ela parece estar envergonhado. Mas, ela pensa, ele é um tolo, pois não há razão para ficar com vergonha.

“Eu espero que ela esteja com medo,” ele diz com uma voz grave que a deixa um pouco desconfortável agora. “eu espero que ela esteja aterrorizada! Eu passei a minha vida toda perseguindo aquelas malditas feiticeiras malucas desde Winhill até a Floresta de Grandidi quando eu fui para o Jardim de Galbadia. Atirando fogo, e gelo, e todo o tipo de veneno e lâminas com suas mãos...” Contra isso, ele franze a testa, e pega na sua coxa esquerda. “É preciso pegá-las enquanto ainda estão jovens, que nem essa putinha aí, antes que elas aprendam a fazer pior do que isso.”

“Presta atenção no que você está dizendo, Pai,” diz o pai dela, e ela enruga sua testa. Ele não parece tão zangado quanto deveria estar. Ela não entende por que o seu avô diz essas coisas cruéis. É bem tolo, ela pensa, porque mulheres não sopram fogo. Apenas dragões e monstros.

“É tão cruel,” o seu irmão diz. “Essa moça é só um pouco mais velha que eu.”

“Filho, não importa a idade que elas tem,” seu pai diz diplomaticamente, parecendo estar desconfortável e esticado entre o espaço que o seu filho e seu próprio pai habitavam. Com uma crueldade infantil, ela espera que ele se quebre e tenha que ser montado de novo, de um jeito mais interessante. Seu pai é tão brando quanto ela. (Ou pelo menos seus pais lhe dizem.) “Elas são uma ameaça para a nossa segurança e felicidade, e o governo tem que saber decidir quando as vidas da maioria são mais importantes do que uma vida individual.”

“Ela estava só pescando e consertando redes,” o seu irmão diz, nervoso. “eu nunca poderia dizer que ela estava num frenesi sangrento, matando homens, mulheres, e crianças, a torto e a direito.”

“Mas elas sempre o fazem, eventualmente,” disse o avô, naquele tom superior que a deixava tão nervosa quanto condescendência deixava o seu irmão nervoso. Sempre significava que ela não conseguiria o que queria, ou que ela seria ignorada por ser só uma criança. Ela tem ouvidos, e ela ouve, não importa o que fosse dito do contrário. “Aquelas feiticeiras perdem a cabeça em alguma hora, e então alguém morre se elas não forem impedidas antes que tenham a chance de fazê-lo.”

“Então nós as matamos na possibilidade remota de que elas fiquem malucas graças às perseguições constantes contra elas?”

Eles continuam nessa maneira, mas ela boceja e vira para a televisão de novo, assistindo enquanto a jovem mulher é amarrada contra a cadeira de metal cristalino com brilho frio. Cada músculo no braço da mulher está contraído contra as algemas de couro, tentando ao máximo não tocar em nada. Seu cabelo amarelado está fibroso e esfarrapado em seu rosto, mas não o bastante para cobrir aqueles poços na sua cara que um livro médico mostrou que levariam a uma caveira e pele suave. Gente é só um tipo diferente de animal, e ela podia ver aquela selvageria através da tela elétrica e através da grande distância até um quarto de espectadores.
Todo mundo na sala vira para a tela, os argumentos caindo quietos, enquanto o oficial se movia na direção da alavanca, e por um momento, ela sente o gosto do sangue nos lábios que ela não sabia que estava mordendo, porque não tem motivo para se preocupar quando você não pode ouvir nada.
Cadeiras elétricas fazem os corpos se torcerem em lindos arcos, uns que quebravam espinhas e partiam pulsos. Sua boca aberta, ela percebe, mas não há som algum, e é positivamente desorientador e pesado aos seus ouvidos, pois devia ter alguma coisa zunindo por sua cabeça e pelos espaços rasos entre suas vértebras e bacia. (Ela podia contá-las, uma duas três quatro, nove, doze, vinte e quatro; tão consciente de si mesma.)
É uma morte fria, e não obstante ela mesma, com olhos cinzentos que não se parecem nem um pouco com os sombrios e insondáveis dela, ela se abraça e pode sentir o gosto do metal e do aço do relâmpago em sua língua, enquanto algo dentro dela diz, ‘esta será você.

Ela é uma criança neutra, pele cor de baunilha e de creme-craque, e quando os seus pais estão satisfeitos e o seu avô parcialmente feliz, ela se permitia ser levada até o seu quarto onde ela se sentaria imóvel e deixaria que sua mãe pálida penteasse o seu cabelo cor de cinzas (nem ao menos dourados para serem loiros, mas escuros e cinzentos e cheirando a queimado tal como se ela tivesse ateado fogo ela mesma). Ela rastejaria até sua cama, e fingiria não pensar nas suas costas se arqueando, um meio-círculo de dor perfeito, e ao invés disso sorriria suavemente e rolaria para longe do lado do quarto que pertencia a seu irmão.

Ela nunca tinha considerado aquilo um problema antes, que aos oito anos de idade ela dividiria um quarto com o irmão de quatorze anos porque não há espaço e dinheiro para que eles ficassem separados. Ela não aprenderá a temer a presença e o gentil ronco dele até agora, quando tudo que ela quer fazer é respirar cuidadosamente e manter suas costas direitas e incômodas.

(...)

A pedra é velha e partida, o que não passa de uma invenção porque não há tempo coerente aqui; ela se assegurou de que fosse assim. É um pedaço explodido da construção, tostada e queimada tanto do fogo quanto do trovão e se ela aproximar o nariz perto o suficiente dos restos mortais do mármore ela seria capaz de sentir o cheiro da eletricidade e do calor como se estivesse em sua própria pele. Ela gosta de ver o dragão de pedra dessa forma. Faz com que a passagem pareça mais interessante.

Ela está facilmente entediada. Uma semana depois ela quebrará outro pedaço dele, como se isso fosse, de alguma forma, essencial. “Agora não passa de um meio-dragão!” ela rirá, e estenderá suas mãos à escultura, como se apresentando-a a uma audiência imaginária. “Ele poderá tornar-se como eu, e esconder suas presas em seu peito vazio e de novo nas gargantas de outros.” Ela então, observará a escultura adquirir vida enquanto ela solta leves gargalhadas.

Mas, por hora, ela sorri e assopra a poeira para longe da garra quebrada. Haveria mofo sobre a escultura se ela pudesse deixá-la em paz, parasse de brincar com o relógio e de empurrar o pêndulo para frente e para trás feito uma criança com mãos ociosas. (Mas diferente de uma criança, suas ações causarão de fato alguma coisa. “...ela continua a alterar o tempo do jeito que bem entende,” um comandante diz de uma transmissão aérea. “Ela não é melhor do que qualquer animal egoísta.” Ela ri e muda as ondas de rádio para algo que ela ache mais agradável. Tenores das grandes guerras há muito mortos e esquecidos cantam sobre a transmissão.)

Ela é uma mulher notável, não uma criança branda, não, nunca branda porque isso seria entediante, e ninguém é tão interessante quanto ela mesma. Ela precisa de nenhum outro e quer nenhum outro porque todo mundo que não seja ela e seu cabelo cor de cinzas e olhos de feiticeira dourados é previsível.
Ela dança, eles franzem as testas. Ela os parte, eles gritam. Ela deseja, sobre o corpo sem vida de um cadete ‘SeeD’, branco e bege e tão brando quanto ela chegou a acreditar que ela própria fora um dia, que alguém simplesmente risse da sensação excruciante da magia dela partindo suas espinhas.

(“A vida é absurdidade!” Ela diz, sorrindo. O jovem cadete grita enquanto a eletricidade percorre seu corpo até que o seu corpo forme um lindo arco. “Não é engraçado que eu assisti isso acontecer à uma mulher na televisão não menos que centenas de anos atrás?”)

O corpo deixado para trás é mil vezes mais interessante do que a pessoa que ele fora há apenas algumas horas atrás. A feitiçaria do castelo já o afeta, transformando-o, até que ela consiga ver os ossos por debaixo da pele, frágeis e brancos por debaixo de todas as veias azuis e violetas. O castelo sempre transforma as coisas para agradá-la, um bom zelador para sua mente. Ela deve sempre ser entretida, e até a própria construção e trabalhos de metal de seu assento pesam-se para frente e para trás até que as coisas sejam diferentes e ela possa ser de novo feliz.

“Faça-me uma torre,” ela diz para o poder na terra e no céu, “uma que tenha muitas janelas e portas para que então eu possa apoiar o meu cabelo de aço para fora para que as pessoas escalem e venham me resgatar.” Ela riu então, observando as correntes se erguerem da poeira. “Mas é claro que, quando elas enfim subirem, eu lhes devorarei.”

O cabelo do cadete fora marrom escuro, como daqueles nativos de Centra, o clã mais ancião que falava de coisas como as brisas e suspiros das montanhas. Ela já tinha se esquecido dos olhos do jovem, encarando-a por debaixo das pedras. (“Venha agora, garoto, é agora que você diz algo atrevido, como ‘Mais peso.’”)

Há muito tempo atrás, ela poderia tê-lo segurado em seus braços como uma criança pequena e pedido para que ele lhe contasse sobre as coisas mais antigas do mundo, a nação partida que convocava demônios da lua e deixava poucas mas certas pilhas de entulho e arcos que não iriam a nenhum lugar em especial. “Diga-me, o que o deus da lua escondeu sob o mar, no coral verde?” ela poderia ter perguntado. “Diga-me por que ele colocou o poderoso Bahamut sobre a cidade arruinada.”

Hoje, no entanto, ela estica uma mão delgada, os olhos de predador tremendo de um lado para o outro, procurando por algo na linha partida de suas costas, nas rupturas das vértebras atravessando a pele para esguichar sangue nela. “Aqui jaz o vale da minha casa,” ela decide, “que eu há muitos enegreci junto a meu nome e uma tempestade.” No número de listras que ela possui pintadas das sobrancelhas para baixo, ela consegue contar o número de cidades que ela partiu em mil pedaços como se fossem castelos de brinquedo, mas ainda assim ela conta ‘casa’ como a mancha vermelha em seu seio esquerdo.

Seu pai ou alguém que se parecia com ele (ela não podia mais se importar em saber; humanos parecem-se todos uns com os outros) arqueou lindamente quando o trovão o atingiu da primeira vez. Ele arqueou tão maravilhosamente que ele se partiu ao meio. Na loucura que fora sua adolescência, ela já tinha praticado fazer aquele meio-arco perfeito nos lençóis cheios de mofo de um hotel de baixa categoria perto de Timber.
Tão noviça era ela em sua feitiçaria que ela já tinha planejado exatamente como ela pareceria quando os SeeDs a capturassem, como ela se torceria encima daquela maldita mesa à qual eles prendiam as feiticeiras que sua família chamava de putas. “Vamos, me arreganhem que nem a puta que vocês pensam que eu sou,” ela disse para o teto. “Vocês podem espancar a magia de mim se vocês precisarem, eu não ligo!” Um ano depois ela volta para casa e a esmigalha com suas mãos febris.

O Tempo é incalculável no castelo dela. Ela não se lembra de quando a feitiçaria a tomou. Ela apenas sabe agora que quanto mais forte ela se torna, menos provavelmente ela será aquela mulher na mesa com o ‘O’ como boca. Ela gosta de muito barulho e estridência, porque quando está tudo quieto ela sente como se estivesse novamente naquela cova com sua família e com a televisão no ‘mudo’, ouvindo o barulho branco que ela supõe que conta como os gritos em algum lugar.

Mais uma vez cutucando o corpo do jovem cadete com um pé cuidadosamente transfigurado pela magia (seus pés talvez sejam um reflexo do que ela desejou para si mesma – enegrecidos, inumanos, porém descalços e nus, à mostra para quem quiser assim vê-los) e, portanto, devidamente calçado, ela espera que o castelo o transforme em alguma coisa aterradora. Ela tem um apetite por monstros essa noite.

Tique, cláque fazem seus pés.
.
.
.
.
.
.
fin

Um comentário: